Portugal tem de mudar paradigma para sair de situação de asfixia na questão da água - Quercus

Lusa

A associação ambientalista Quercus alertou hoje que Portugal está numa situação de asfixia na questão da água face a uma potência agrícola como Espanha e defendeu que é necessária uma mudança de paradigma para recuperar o ciclo da água.

“Estamos num país com cada vez menos árvores e num país sem árvores não chove”, disse à agência Lusa a presidente da Quercus, Alexandra Azevedo, lembrando o colapso de civilizações.

“Estamos a reproduzir o chamado fenómeno da Iha de Páscoa, mas poderíamos falar em muitas civilizações”, exemplificou.

A escassez de água, referiu, leva “à fome e à destruição de outros recursos”.

A situação de seca vivida em Portugal, agravada pela possibilidade de Espanha reduzir as descargas das barragens dos rios internacionais, repete-se com “cada vez mais frequência”, sublinhou.

“Estamos numa situação difícil. Espanha, como potência agrícola, que é o setor que mais consome [água], coloca Portugal numa situação de asfixia”, defendeu a presidente da Quercus.

“Temos de nos questionar cada vez mais sobre o porquê da diminuição da chuva”, disse, frisando que o fenómeno não está apenas relacionado com as alterações climáticas a nível global, mas com as políticas agrícolas seguidas em cada país.

De acordo com Alexandra Azevedo, o abate de árvores interrompe o ciclo da água. O mesmo se passa com agricultura e pecuária intensivas.

“Destrói-se o bosque natural e reduzimos cada vez mais a chuva”, lamentou.

Para a presidente da Quercus, a “boa notícia” é que é possível recuperar, com uma mudança de práticas. Uma das medidas preconizadas pela associação é os animais de pasto não permanecerem mais do que dois a três dias numa parcela e só regressarem quando estivesse regenerada, ao fim de alguns meses.

“É todo um processo em que se regenera, ao contrário do que acontece atualmente”, alegou, criticando também a plantação intensiva em fila, sem vegetação pelo meio, seja de oliveiras ou outras espécies.

“As práticas atuais levam a um ciclo vicioso. Sem enriquecer o solo e aumentar a diversidade do ecossistema não vamos conseguir que a chuva volte”, garantiu.

Com as medidas adequadas, será possível uma rápida regeneração, num ano, adiantou a presidente da Quercus, apontando que "estão a ser construídos autênticos aterros”, como se de obras construção civil se tratasse, para instalar plantações. “Tem de haver sebes”, insistiu.

A agência EFE noticiou hoje que Portugal e Espanha acordaram reduzir esta semana as descargas de água de barragens espanholas da bacia do Douro, assumindo a impossibilidade de cumprimento dos caudais mínimos acordados, citando fontes do Governo espanhol.