Os eleitores que hoje estão a votar na Marinha Grande, em voto antecipado para as eleições presidenciais, afirmaram que apesar dos danos da tempestade que ainda os priva de água em casa, nada os demoveria de votar.
As três mesas de voto colocadas no Edifício da Resinagem estavam a ter uma afluência contínua e pouco ou nada se falava de eleições.
As conversas eram todas à volta da intempérie, da falta de água que ainda persiste, dos danos nas ruas, nas empresas, no pinhal, e dos salários de janeiro, que nem todos receberam.
“Nada me ia fazer não votar”, disse Sérgio Silva, 56 anos, à saída da mesa de voto após ter sido um dos primeiros 20 votantes e quando a Marinha Grande estava coberta de cinzento e caía uma chuva miúda.
Sérgio Silva foi dos que menos sofreu com a tempestade da noite da passada quarta-feira. “Danos só nos telhados e uns vidros partidos”, mas foram dois dias sem comunicações, sem luz durante 24 horas e hoje, domingo, a água voltou a faltar.
Tendo sofrido poucos danos materiais, Sérgio Silva optou por ajudar a vizinhança. Trouxe pão, água, enlatados, velas, fogões a gás para os mais idosos e frágeis.
Quando se pôs a percorrer a cidade após o vendaval, “não queria acreditar, o pinhal [das Merendas] todo partido, não é cair um pinheiro manso que estivesse doente, é não haver um pinheiro de pé, partiram-se ao meio”.
“Vi gente a chorar, as pessoas todos os dias iam para aquele pinhal, os pinheiros tinham sobrevivido aos grandes incêndios” de 2017, lembrou.
Maria Mateus, 84 anos, também votou cedo “porque não podia faltar” e lembrou o incidente de há 40 anos na Marinha Grande: “Tiveram que se esconder dentro da igreja, a 30 metros daqui”.
A eleitora referia-se àquele que ficou conhecido como “o episódio da Marinha Grande”, quando numa ação de campanha a comitiva e o próprio candidato presidencial Mário Soares foram agredidos, em 1986.
Há 40 anos este foi um dos momentos marcantes da campanha dessas eleições presidenciais, mas agora é deste episódio relacionado com a tempestade que quer falar, embora não muito.
Põe as mãos na cabeça e fica em silêncio. “Como isto que aconteceu não, nunca vi. A minha mãe contava que em 1941 houve um ciclone, mas este foi horrível”.
Maria Mateus veio votar com a filha Gracinda, que ainda tem presente o que se passou naquela noite que a deixou com o trauma: “Agora ouvimos um bocado de vento e entramos em pânico”.
Gracinda Mateus é empresária e ficou sem o telhado do seu pavilhão industrial, sem água e sem luz. “Hoje tomei banho com uma bacia”.
Ângela Silva, 49 anos, também se queixou de ter todos os equipamentos elétricos em casa, o que a obrigou a comprar fogão a gás. Têm sido dias difíceis “estou ainda sem comunicações e sem água”, lamentou.
Num intervalo dos trabalhos na mesa de voto número um, Isabel Faria disse que só deixaria de trabalhar em eleições “se estivesse mesmo muito doente”.
Além da mesa de voto, Isabel Faria contou que andou estes dias “numa missão” de encontrar pessoas sem comunicações.
“As pessoas que encontrei estavam bem, mas as pessoas que trabalham em empresas destruídas e que agora não sabem o que vai ser da vida delas, essas é que me preocupam”, referiu.
Contou que ela própria não recebeu o salário de janeiro porque a empresa não teve condições de processar os salários.
“Não havia luz, não recebi o ordenado. Além de que desde terça-feira que não tinha uma torneira com a água a correr”, disse ao se aperceber que no edifício onde decorre o ato eleitoral havia água na torneira.
“É o quinto dia que não tomo banho, mas não cheiro mal, não se preocupem”, riu.
Na Marinha Grande inscreveram-se 799 eleitores para o voto antecipado.
António José Seguro e André Ventura vão disputar a segunda volta das eleições presidenciais, em 08 de fevereiro. Na primeira volta, Seguro conquistou 31% dos votos e Ventura, líder do Chega, obtido 23%.