O Presidente da República despediu-se hoje das instituições europeias recordando que a Europa foi “um dos sonhos” da sua geração e avisando os mais jovens de que a UE “não é um dado adquirido” e dá “um trabalhão enorme”.
Em declarações aos jornalistas no Parlamento Europeu, na sua última visita a uma instituição europeia antes do final do seu mandato, Marcelo Rebelo de Sousa fez um breve balanço da sua experiência europeia e recordou que a Europa foi “um dos sonhos” da sua geração.
“Para a minha geração, a Europa foi um dos sonhos da nossa vida. Para a minha geração, vir cá fora, comprar os livros proibidos em Paris, ver os filmes proibidos – ‘O Último Tango’ –, ter um contacto cultural e civilizacional e desejar isso para Portugal... Era o sonho da minha geração”, lembrou.
Marcelo Rebelo de Sousa disse que esse sonho “parecia que nunca mais chegava” e estava ligado “à democracia, à liberdade e depois passava inevitavelmente pela descolonização”.
“Quando olho para trás e digo ‘houve muita coisa, sonhos que se perderam, a democracia podia ser melhor, a liberdade podia ser melhor’, mas a democracia, qualquer uma dela, é melhor do que as ditaduras. A pior democracia é melhor do que a melhor ditadura”, salientou, frisando que o sonho da sua geração de pertencer à Europa foi “largamente realizado”.
“Há muita coisa que é preciso fazer, claro. Pois, se mudou o mundo, a Europa tem de mudar, não pode ficar parada, não tem nada a ver com há 40 anos... Mas foi um sonho para a minha geração”, disse.
O Presidente da República salientou que a geração mais velha do que ele já não teve a oportunidade de viver a concretização desse sonho, só o “viveram tardiamente”, e os mais novos vivem-no com “o ar mais natural do mundo, de ser um dado adquirido”.
“Não é um dado adquirido. É um trabalhão enorme construir a Europa e dá um trabalhão enorme refazer a Europa permanentemente”, disse.
Marcelo salientou que muitas vezes se discorda do que a UE faz, mas pediu que, nesses momentos, se “ponha num prato da balança” o que os europeus e portugueses ganharam com o projeto e o que perderam.
“O prato da balança positiva é muito maior, mais pesado”, disse.
Marcelo Rebelo de Sousa fazia estas declarações no final de um encontro com eurodeputados portugueses, no dia em que o Parlamento Europeu organizou uma sessão comemorativa dos 40 anos da adesão de Portugal e Espanha à Comunidade Económica Europeia (CEE).
O Presidente da República salientou que, nesse encontro, transmitiu aos eurodeputados portugueses “grande orgulho pelo peso que Portugal tem na Europa e no mundo, e nomeadamente na Europa”, frisando que Portugal tem ou já teve presidentes do Conselho Europeu, da Comissão Europeia, do Tribunal de Contas Europeu, já teve um vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) e tem “altos cargos no poder judicial europeu”, entre os quais a Provedora de Justiça Europeia, Teresa Anjinho.
“E tivemos sempre no Parlamento Europeu, como na Comissão e no Conselho, através dos governantes do país, gente muito prestigiada e influente... E isto é um grande orgulho para o Presidente da República e é um grande trunfo para Portugal”, disse.
Marcelo defendeu que o país só tem conseguido ter portugueses nessas posições chave por “mérito dos próprios”, mas também “pelo prestígio que Portugal tem”.
“Porque fazemos pontes impossíveis, fazemos plataformas que outros não fazem, falamos com todos. Fazemos sopa de pedra, às vezes, sem ingredientes suficientes, fazemos sopa de pedra”, disse, elogiando ainda os eurodeputados portugueses por perceberem “como é importante, dentro da diversidade de opiniões, convergirem” quando está em causa “as questões vitais do país”.