Um grupo de portugueses retido no Qatar devido ao conflito no Médio Oriente manifestou hoje à Lusa descontentamento com a falta de “soluções viáveis” para sair da região pelo Governo português.
Em resposta à Lusa, fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros garantiu que há solução e que esta está “justamente a ser tratada e que não será divulgada publicamente para garantir a segurança dos cidadãos nacionais”.
A Lusa procurou obter mais esclarecimentos sobre a situação dos portugueses retidos no Médio Oriente, incluindo no Qatar, mas não foi possível obter resposta.
Três portugueses que chegaram ao Qatar dia 27 de fevereiro, mas que acabaram retidos devido ao início do ataque israelo-americano ao Irão, que resultou na resposta de Teerão contra vários países do Médio Oriente, incluindo o Qatar, manifestaram insatisfação com a proposta apresentada hoje pela Embaixada de Portugal em Doha.
De acordo com a comunicação aos cidadãos portugueses retidos, a que a agência Lusa teve acesso, é proposto transporte terrestre para Riade, disponibilizado “especialmente aos portugueses retidos no Qatar, ou seja, que se encontravam aqui em turismo ou em trânsito no momento do encerramento do espaço aéreo”.
A embaixada portuguesa salientava na mesma comunicação que o transporte “leva apenas até Riade” e que os cidadãos devem efetuar uma reserva num voo comercial “marcada com possibilidade de alteração de data”, antes da viagem de autocarro.
“Tendo em conta as instruções das autoridades do Qatar para que se mantenham abrigados em casa e evitem sair à rua, a Embaixada pode organizar e assegurar o transporte terrestre até Riade, mas não pode garantir a segurança durante o percurso ou em qualquer ponto da viagem. A decisão de participar neste transporte é, portanto, de caráter estritamente pessoal e da exclusiva responsabilidade de cada cidadão, devendo ser ponderados os riscos associados à circulação na região neste momento, incluindo as eventuais alterações relacionadas com o espaço aéreo da Arábia Saudita. A participação implica a assinatura prévia de um termo de responsabilidade individual”, pode ler-se ainda.
José Camilo, um dos três portugueses retidos no Qatar que falaram hoje à agência Lusa, frisou que desde o início do conflito e o encerramento do espaço aéreo que estão num hotel por sua conta e que têm estado em contacto com a diplomacia portuguesa para encontrar uma solução.
Na quarta-feira à noite, a embaixada enviou para um grupo na rede social WhatsApp com 56 pessoas esta proposta, que José Camilo considera “completamente impraticável”.
“Há responsabilidade efetiva do Governo português, agora e futura, porque nos induziu a ficar nesta passividade. Se nós estamos mal, temos familiares muito mais preocupados graças à postura que o Governo português está a ter”, apontou, questionando como o Ministério dos Negócios Estrangeiros “não tem capacidade para tratar de 56 repatriamentos”.
Estes portugueses, que estavam numa viagem de turismo e pararam no Qatar antes de regressarem a Lisboa, consideram a proposta da embaixada descabida por arranjar apenas transporte terrestre para Riade numa fase em que não há garantia de saída da Arábia Saudita.
“Nesta fase existe a probabilidade de as coisas de agravarem mais. O Qatar ainda tem meios de defesa, mas percebe-se que esses meios não são infinitos”, realçou José Camilo.
Este português contou ainda que respondeu à proposta manifestando as suas preocupações, e adiantou que mais portugueses pediram explicações adicionais no mesmo grupo do WhatsApp, mas referiu que até às 23:00 (hora portuguesa) estavam “há quatro horas sem resposta”.
O grupo de portugueses que falou à Lusa pediram ainda uma “solução com um risco menor” para regressar a Portugal.