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Ucrânia: Incerteza cresce entre refugiados após dois anos de guerra

Data de publicação
20 Fevereiro 2024
16:13

Um número crescente de ucranianos que se refugiram no estrangeiro ou estão deslocados internamente devido à agressão militar russa manifestam incerteza sobre o seu futuro, à entrada para o terceiro ano de guerra, revela hoje um estudo do ACNUR.

De acordo com o estudo publicado pelo Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), a poucos dias do segundo aniversário da invasão russa, ocorrida a 24 de fevereiro de 2022, a maioria dos refugiados ucranianos e das pessoas deslocadas internamente continuam a manifestar o desejo de regressar um dia a casa, mas a proporção diminuiu, “com mais pessoas a manifestarem incerteza devido à guerra atual”.

Apontando que, “atualmente, há quase 6,5 milhões de refugiados da Ucrânia que procuraram refúgio em todo o mundo, enquanto cerca de 3,7 milhões de pessoas permanecem deslocadas à força dentro do país”, o estudo da agência das Nações Unidas para os Refugiados revela que “a proporção de refugiados que planeiam ou esperam regressar à Ucrânia no futuro diminuiu em relação a um ano, de 77% para 65%, enquanto a percentagem dos que estão indecisos sobre o regresso aumentou, de 18% para 24%, bem como dos que não têm esperança de regressar, de 5% para 11%”.

“Uma tendência semelhante é observada entre os deslocados internos, onde a proporção dos que planeiam ou esperam regressar no futuro também diminuiu em comparação com o ano anterior, de 84% para 72%, em contraste com o aumento dos que estão indecisos sobre o regresso, de 9% para 12%, bem como os que não relatam nenhuma esperança de regressar, de 7% para 15%”, de acordo com as conclusões preliminares do estudo.

O estudo, intitulado “Vidas em suspenso: Intenções e perspetivas dos refugiados, dos refugiados retornados e das pessoas deslocadas internamente da Ucrânia”, baseia-se em entrevistas realizadas entre janeiro e fevereiro deste ano junto de 9.900 famílias ucranianas de refugiados, deslocados internos e retornados, dentro e fora do país.

Entre as razões mais invocadas pelos inquiridos para justificar a relutância em voltar a casa, conta-se como principal fator a “insegurança prevalecente na Ucrânia”, mas também são apontadas outras preocupações, designadamente a falta de oportunidades de emprego e de habitação.

“Após dois anos de guerra em grande escala na Ucrânia, e no meio de uma destruição maciça e de contínuos bombardeamentos e ataques com mísseis em todo o país, o futuro de milhões de pessoas que foram deslocadas continua envolto em incerteza. À medida que a guerra avança, as condições humanitárias continuam a ser terríveis na Ucrânia, onde cerca de 40% da população necessita de apoio humanitário e de proteção”, salientou hoje, em conferência de imprensa o diretor do ACNUR para a Europa, Philippe Leclerc.

Notando que “esta crise de refugiados é caracterizada por um elevado grau de separação familiar, com muitos familiares do sexo masculino a permanecerem na Ucrânia”, o responsável do ACNUR apontou que “o reagrupamento familiar foi um dos principais fatores para os refugiados que regressaram permanentemente a casa”.

“Atualmente, há mais refugiados a fazer visitas de curta duração à Ucrânia - cerca de 50%, que compara com 39% no ano passado - principalmente para visitar membros da família, mas também para verificar os bens. Tal como referido na posição do ACNUR sobre o regresso voluntário à Ucrânia, estas visitas podem, em última análise, facilitar a tomada de decisões bem informadas sobre o regresso a longo prazo, quando as condições o permitirem”, comentou Leclerc.

A este propósito, o ACNUR insta os Estados de acolhimento a manterem “uma abordagem flexível em relação às visitas de curta duração dos refugiados à Ucrânia e a assegurarem que o estatuto jurídico dos refugiados e os direitos conexos num país de acolhimento não sejam afetados por visitas com uma duração inferior a três meses”.

“A proteção e as necessidades dos refugiados devem ser asseguradas até que estes possam regressar voluntária e sustentavelmente a casa, em segurança e dignidade”, salientou.

Recordando que, no mês passado, a ONU solicitou à comunidade internacional um financiamento de 4,2 mil milhões de dólares ( cerca de 3,8 mil milhões de euros) para ajuda humanitária à Ucrânia em 2024 e para apoiar os refugiados que fugiram desde a invasão russa, o diretor do ACNUR para a Europa reforçou hoje que, “enquanto a guerra continuar, os refugiados, os deslocados internos e as pessoas afetadas pela guerra que permaneceram nas zonas da linha da frente necessitam de apoio urgente”.

“Embora a resiliência das pessoas continue a ser forte e os esforços de recuperação estejam bem encaminhados em muitas áreas, estes devem continuar a ser apoiados ou a proteção e a resiliência dos ucranianos serão postas em causa (...). Temos assistido a uma enorme manifestação de solidariedade e apoio à Ucrânia, e este apoio tão necessário não pode parar agora”, disse.

“Se não recebermos financiamento atempado, poderemos ser obrigados a cortar atividades essenciais na Ucrânia e nos países vizinhos”, advertiu o representante.

No próximo sábado, assinalam-se dois anos sobre a ofensiva militar russa no território ucraniano, desencadeada em 24 de fevereiro de 2022, que mergulhou a Europa naquela que é considerada a crise de segurança mais grave desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

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