A presidente da Comissão Europeia alertou hoje para o “conflito regional com consequências não intencionais” no Médio Oriente, com a guerra iniciada por Israel e Estados Unidos ao Irão, vincando que “não deve haver lágrimas pelo regime iraniano”.
“Estamos agora a assistir a um conflito regional com consequências não intencionais e os efeitos colaterais já são uma realidade hoje - seja na energia e nas finanças, no comércio e nos transportes ou no deslocamento de pessoas”, disse Ursula von der Leyen, intervindo na Conferência Anual dos Embaixadores da União Europeia, em Bruxelas.
No dia em que se registam aumentos acentuados dos preços do gás natural (de 30% para os 69 euros por megawatt-hora) e do petróleo (com o Brent a ultrapassar os 100 euros por barril), a líder do executivo comunitário assinalou que “se podem ouvir diferentes opiniões sobre se o conflito no Irão é uma guerra de escolha ou uma guerra de necessidade”.
“Mas acredito que este debate perde parcialmente o essencial porque a Europa deve concentrar-se na realidade da situação, vendo o mundo tal como ele realmente é hoje. Quero ser clara: não deve haver lágrimas pelo regime iraniano que infligiu morte e impôs repressão ao seu próprio povo [...] e que causou devastação e desestabilização em toda a região através dos seus representantes armados com mísseis e drones”, afirmou, sem nunca mencionar os ataques iniciais norte-americanos e israelitas.
“Muitos iranianos, dentro do país e por toda a Europa e o mundo, celebraram a morte do ‘ayatollah’ Khamenei, tal como muitas outras pessoas em toda a região. Eles esperam que este momento possa abrir um caminho para um Irão livre e o povo do Irão merece liberdade, dignidade e o direito de decidir o seu próprio futuro, mesmo sabendo que isto estará repleto de perigos e instabilidade durante e após a guerra”, elencou.
Ainda sobre as consequências do conflito, que já envolveu vários países da região, Ursula von der Leyen indicou que “bases militares britânicas foram alvo de ataques no Chipre” e que “cidadãos estão a ser apanhados no fogo cruzado” e alguns “parceiros estão a ser atacados”.
“O impacto a longo prazo já está a colocar questões existenciais sobre o futuro do nosso sistema internacional baseado em regras ou sobre a forma como a Europa encontra unidade nestas situações. Tudo isto mostra quão precária é a situação global hoje, quão diversas são as ameaças e como a Europa será sempre afetada pelo que acontece no resto do mundo e, portanto, a ideia de que podemos simplesmente retrair-nos e retirar-nos deste mundo caótico é simplesmente uma falácia”, referiu.
Falando perante uma plateia com alguns dos 145 embaixadores e chefes de delegação em todo o mundo, Ursula von der Leyen apelou: “Acredito que é vital compreendermos isto enquanto moldamos a nossa política externa para o próximo ano”.
“Precisamos urgentemente de refletir se a nossa doutrina, as nossas instituições e a nossa tomada de decisões - todas concebidas num mundo do pós-guerra marcado pela estabilidade e pelo multilateralismo - acompanharam a velocidade das mudanças à nossa volta”, adiantou.
Já sobre a Ucrânia, dado o bloqueio húngaro ao país invadido pela Rússia em fevereiro de 2022, Ursula von der Leyen defendeu que a União Europeia deve “assegurar que cumpre os seus compromissos”, como o empréstimo aprovado de 90 mil milhões de euros para financiar as necessidades da Ucrânia, por “estarem em jogo a credibilidade e a segurança” europeia.
Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irão, tendo matado durante a ofensiva o ‘ayatollah’ Ali Khamenei, líder supremo do país desde 1989.
Em resposta, o Irão lançou ataques de retaliação contra alvos em Israel, bases norte-americanas e outras infraestruturas em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque. Incidentes com projéteis iranianos também foram registados em Chipre e na Turquia.