Os separatistas no Iémen anunciaram hoje o início de um processo de dois anos rumo à independência do Sul, que inclui um referendo a 02 de janeiro de 2028, após terem tomado vastas áreas do território nas últimas semanas.
“Partindo do desejo e da vontade do nosso povo do Sul de restaurar e proclamar o seu Estado (...), anunciamos o início de uma fase transitória com a duração de dois anos”, declarou o presidente do Conselho de Transição do Sul (STC, na sigla original), Aidarus al-Zoubaidi, decidido a restaurar o Estado do Sul da Arábia.
O líder do movimento separatista falava numa intervenção dirigida à população do sul do Iémen, após a eclosão da crise entre as autoridades separatistas e o Governo iemenita reconhecido pela comunidade internacional.
“Hoje lançamos uma declaração constitucional para restaurar o Estado do Sul da Arábia”, afirmou al-Zoubaidi, anunciando o início de “uma fase de transição de dois anos que procura evitar conflitos e garantir um percurso político seguro”.
Al-Zoubaidi precisou que “a declaração inclui a realização de um referendo para regular o exercício do direito à autodeterminação dos povos do Sul, sob supervisão internacional”, em princípio após os 24 meses de transição, mas advertiu que, caso os combates prossigam, não exclui a aprovação unilateral da independência.
“A declaração constitucional para restaurar o Estado do Sul da Arábia entrará imediatamente em vigor se o nosso apelo não for atendido ou se formos alvo de qualquer agressão, e todas as opções estão em cima da mesa se as reivindicações não forem tidas em conta”, avisou.
“Hoje, eclodiu a guerra entre o norte e o sul”, declarou o porta-voz militar do STC, general Mohammed al-Naqib, anunciando uma “batalha decisiva” pelas províncias de al-Mahra e Hadramawt, historicamente reivindicadas pelos separatistas.
O conflito territorial no sul do país tem sido ofuscado por anos de guerra civil entre o Governo iemenita e o movimento rebelde Huthi, que controla a capital, Sana, há cerca de uma década.
No auge do conflito, os separatistas do STC apoiaram de forma relutante as autoridades de Aden em troca de promessas de independência, num país que esteve dividido entre norte e sul até 1990.
Essa aliança frágil rompeu-se de forma mais grave no início de dezembro, quando forças separatistas lançaram uma ofensiva no leste do país para retomar territórios históricos, resultando na morte de 32 soldados iemenitas em Hadramawt.
Na semana passada, ataques aéreos sauditas visaram áreas controladas pelos separatistas, que, segundo o STC, foram retomados hoje, em paralelo com operações terrestres das forças pró-governamentais conhecidas como Escudo da Pátria.
Embora o comandante do Escudo da Pátria, Bashir al-Madhrabi, tenha inicialmente negado qualquer envolvimento, o governador de Hadramawt, Salem al-Janbasi, confirmou uma “operação de segurança limitada” para assumir o controlo de campos militares separatistas.
Al-Janbasi rejeitou ainda acusações de ligações dessas forças ao grupo extremista Al Qaida, classificando-as como “absolutamente ridículas”.
O STC denunciou, contudo, uma “ofensiva terrorista sob cobertura do poder aéreo saudita” em Hadramawt, havendo a registar sete mortes.
O canal Independente de Aden, próximo dos separatistas, afirmou que as “Forças Armadas do Sul” repeliram uma “agressão saudita” contra o território histórico do sul.
O vice-presidente do STC, o general Ahmed Said bin Brik, convocou uma mobilização geral da população para um contra-ataque iminente com o objetivo de reocupar o vale de Hadramawt e os seus campos petrolíferos.
Riade manteve-se em silêncio sobre os confrontos, limitando-se a anunciar, através do porta-voz da coligação internacional, a conclusão de um destacamento naval no Mar Arábico para operações de inspeção e combate ao contrabando.
A única reação oficial do Governo iemenita partiu do conselheiro presidencial Thabet al-Ahmadi, que acusou o STC de ter dado “um passo suicida” que confirma o seu “comportamento paramilitar”, em declarações à cadeia televisiva Al Jazeera.
Já hoje, os Emirados Árabes Unidos (EAU) confirmaram que as suas últimas forças militares deixaram o Iémen e apelaram ao desagravamento do conflito neste país, onde separatistas apoiados por Abu Dhabi foram alvo de ataques aéreos mortíferos.
“Os EAU puseram fim à presença das suas forças de combate ao terrorismo” no Iémen, afirmou um responsável governamental, acrescentando, contudo, que o país “continua empenhado no diálogo, na desaceleração e nos processos apoiados pela comunidade internacional como única via sustentável para a paz”.