O músico Gabriel Gomes, que fez parte da Sétima Legião e dos Madredeus, estreia-se a solo com “Uma História Assim”, um álbum no qual celebra uma carreira com mais de 40 anos dedicados ao acordeão.
Gabriel Gomes, de 59 anos, iniciou a carreira na música na década de 1980, na Sétima Legião. Desde então, esteve na fundação dos Madredeus, criou com Rodrigo Leão o grupo os Poetas, explorou a música eletrónica no Projecto Om e Tjak e tem tocado com artistas como Tim e Jorge Palma.
Agora apresenta pela primeira vez canções em nome próprio, no álbum “Uma História Assim”, a ser editado na sexta-feira.
Os vários projetos em que esteve integrado ao longo da carreira “dão, hoje em dia, forma a este disco”, disse o músico, em entrevista à Lusa.
“‘Uma História Assim’ é esta história que tenho com este acordeão na minha mão, e que traz a experiência dos grandes concertos que fiz, tanto com a Sétima Legião como com Madredeus, e mais à frente com Os Poetas, com o [Jorge] Palma, com o Tim, e que se traduz numa série de músicas que eu tinha feito há alguns anos, e agora algumas mais recentes, e que espelhou um bocado esta viagem toda que foi a minha relação entre o acordeão e a música, como se fosse um psicanalista pessoal”, partilhou.
O acordeão entrou na vida de Gabriel Gomes através da mãe, uma “aficionada” daquele instrumento.
Aos oito anos, o agora músico foi estudar para a única escola de acordeão que existia naquela época em Lisboa, o Instituto de Música Vitorino Matono, que frequentou até aos 13 anos e onde teve aulas de música e aprendeu “os passos dobles, as valsas os tangos”.
No início da adolescência fartou-se do instrumento, “porque nessa altura já as crianças gostavam de guitarra, de piano, de bateria”.
Assim, aos 13 anos, trocou o acordeão pelo piano e a guitarra. Uns anos mais tarde, com 16/17 anos, regressou ao acordeão, desafiado por Rodrigo Leão, que então já tinha formado a Sétima Legião.
“Vivíamos todos no mesmo bairro [em Lisboa]: eu, o Rodrigo Leão, o Pedro Oliveira [também da Sétima Legião]. Certo dia encontrei o Rodrigo e ele perguntou, ‘se tocas acordeão, não queres vir a um ensaio?’”, recordou.
Gabriel Gomes, que “não sabia quem era a Sétima Legião”, acabou por ir e entrou assim para a banda, concretizando dessa maneira “um sonho” de tocar músicas próprias, “fazer tudo que não fossem os passos doble, as valsas”.
Mais de 40 anos depois, aventura-se a solo, impelido por amigos, entre os quais Rodrigo Leão.
“O meu querido amigo Rodrigo, que já conhecia algumas músicas, e outros amigos, mas sobretudo ele, é que me influenciaram e disseram ‘tu tens que gravar as tuas músicas, as tuas músicas são lindíssimas’”, contou.
Para um músico que “sempre tinha gostado daquele papel de não ser da frente, mas também ser parte integrante das bandas”, e que para quem o acórdão funcionava como o seu refúgio, “a exposição não era propriamente” algo que desejasse.
“Acho que a maturidade nos dá um bocadinho de paciência connosco próprios. E hoje em dia acho que o disco é, digamos, a tradução dessa maturidade”, referiu.
“Uma História Assim” é composto por dez temas, todos originais, a maioria compostos recentemente, mas alguns “que vêm de trás”.
“As músicas refletem algumas viagens e há uma, ‘Chorinho’, a última do disco, que me lembro de compor em 1996/97. Nas viagens que Madredeus fazia ao Brasil acabei por vir influenciado pelos temas de chorinho, compus aquela música e agora recuperei-a”, contou.
“Uma História Assim” é “um disco de viagem”, de uma carreira e a vários pontos do mundo, mas também de “emoções”.
“Há uma outra música, ‘Oriental’, que remete para as viagens ao Japão. Acabei por fazer uma música parecida, um bocadinho mais à frente, mas também influenciada pelo espírito oriental”, disse.
Em Portugal, o acordeão é um instrumento muito ligado à cultura popular e Gabriel Gomes lembra-se que quando começou a estudá-lo, “não havia nem sequer no Conservatório curso superior de acordeão, porque não era considerado, se calhar, um instrumento nobre”.
Mas isso tem vindo a mudar: “Já há uns bons anos o acordeão foi integrado no Conservatório. E acho que apareceram, e têm aparecido, grandes músicos de acordeão”.
Gabriel Gomes acredita que o que fez com “Uma História Assim” “também sai um bocadinho fora disso, porque não é um disco popular, sendo ele bastante campestre e se calhar de uma forma popular, mas também é bastante urbano, portanto as músicas acabam por ter alguma coisa de valsa, alguma coisa de tango, mas com uma linguagem muito urbana”.
O músico vê o acordeão como um instrumento que “tem evoluído bastante” e que está a tomar este aspeto “mais urbano e menos popular”.
“Uma História Assim”, produzido por Gabriel Gomes em parceria com João Eleutério e Rodrigo Leão, que é também o único músico convidado no disco, é apresentado ao vivo em Lisboa, em 03 de março, no Coliseu Club, e em 11 de março, no Porto, na Casa da Música.