Como se fosse a última vez

No vazio da queda, pensei que seria o fim. Penso sempre que será o fim no vazio das coisas, seja lá o que for – o sonho, o amor, a escrita, tudo o que é importante, tudo o que é insignificante. Para mim, o vazio dos acontecimentos, de qualquer acontecimento, contém oculta a inscrição do fim de tudo, como se fosse a última vez.

Foi assim:

Aqui há dias, ao sair da banheira, na casa de banho do meu apartamento, pus o pé em falso no chão e escorreguei com violência, como se o piso fosse feito de lodo fresco e profundo. Caí de costas, desamparado, sem tempo para deitar a mão a nada e nada a que deitar a mão. A queda foi súbita, bastante rápida, mas também extensa, tão extensa que me permitiu ver com clareza a vida inteira para trás e para a frente.

Pensei na minha madrasta, que partiu o pescoço ao cair por uma escadaria abaixo e passou os últimos três meses de vida paralisada numa cama do hospital da Cruz de Carvalho. Só conseguia abrir e fechar os olhos e movimentar os lábios sem sentido, como se estivesse a falar, ou como se quisesse falar, mas não dizia nada, não se ouvia nada – era tudo ar.

O meu pai, já ferido de morte por um cancro na próstata, foi visitá-la todos os dias. Descia de autocarro e regressava do mesmo modo, transportando a dor em silêncio para baixo e para cima, sempre bem arranjado como de costume, e também isso eu vi no vazio da queda na casa de banho.

Lembrei-me da nossa última vez, no cemitério de Santo António, quando abriram o caixão para eu confirmar que era ele, e pensei assim: Vou bater com a cabeça na borda da banheira e vou ficar aqui mesmo. Quando a Pat chegar a casa, vai-me encontrar morto, o meu amor vai-me encontrar morto, ou então vou acordar no hospital como quem acorda amarrado dentro de um pesadelo e o resto da minha vida será movimento sem deslocação, sopro sem voz, consciência sem palavra – o horror.

A queda ocorreu defronte do espelho e no trajeto que me levou ao chão de mármore tive o privilégio de observar os meus olhos húmidos e atónitos a sumirem-se no vazio do espaço e também reparei no nascimento do medo dentro de mim e no seu contorno de auréola, uma coisa mágica, e tive ainda tempo de ver o primeiro adeus da alma ao corpo, como se fosse um adeus definitivo, e isto conduziu-me ao fundo da infância e ao colo da minha mãe, minha tão querida mãe, morta há tanto tempo, há 27 anos, tantos quantos esteve viva ao meu lado, apenas 27 anos, e eu pensei assim: O nome disto é solidão.

Finalmente atingi o solo e foi uma queda perfeita. Não me magoei em parte alguma, mas, ao erguer-me, senti-me profundamente triste e deprimido – a alma deve ter partido alguns ossos, sem dúvida.

Então pus-me a pensar no modo insidioso como a idade começa a me derrear. Pouco a pouco vai-se o vigor e a pachorra, desisto da aventura, evito trilhos e veredas, agora procuro sempre o melhor caminho para seguir viagem e quero apenas estar sossegado no meu canto, mas eis senão quando caio na casa de banho como um velho, desprotegido, sem tempo nem agilidade para me agarrar às coisas, eu, que nunca em toda a minha vida de adulto tinha caído assim, vou ao chão num abrir e fechar de olhos, sem mais nem menos.

– Qualquer pessoa escorrega e cai! – Disse-me a Pat. – Não sejas tonto!

Eu sei, eu sei, qualquer pessoa escorrega e cai; mas a verdade, meus amigos, a verdade enorme e absurda, é que eu não consegui dormir naquela noite e desde então tenho sonhado muito com os mortos da minha família, todos os meus mortos revisitados, de modo que ando agora meio perdido no vazio da sua existência, em queda livre, como se esta fosse também a última vez da minha vida.