Os últimos dias antes da ceia

Faz de conta que estes são os últimos dias da vida e eu estou aqui sentado a ver o fim do mundo em curso. Nunca se sabe. Ao cabo de tanto pacto com o Demónio é bem possível que isso venha a acontecer antes da data prevista nas escrituras – as da superstição e as da ciência, já que são quase iguais, ambas sagradas. Um dia a coisa vai acabar, não haja dúvida. Mas, para já, o Diabo não é para aqui chamado. Vade retro.

O problema, meus amigos, é que eu estou cada vez mais velho e por inerência mais cínico, muito mais cínico. Por outro lado, falta-me ânimo e coragem para uma série de coisas com as quais antes costumava vibrar. À medida que me afasto dos 50, a cair a pique para o lado dos 60, os cambiantes da emoção – qualquer que seja a emoção – inquietam-me, encegueiram-me, tolhem-me os movimentos e eu tendo a vestir o manto da solidão para me proteger. Fico parado. Estático. Finjo-me de morto ou então respondo com silêncio às perguntas mais difíceis que me colocam a alma e os outros. Sobretudo a alma. Sobretudo os outros. Tem vezes até em que falo sozinho, monólogos intermináveis e alucinados, pensamentos sem pés nem cabeça. Ninguém me ouve, nem eu próprio.

Não tenho nada para dizer.

A minha opinião é pouca.

Confissões, como esta, só mesmo por escrito – é literatura sem valor.

Olhem só: de repente descobri que tenho medo de sair em viagem e desaparecer no mundo. Eu que vivi como um vagabundo em África, sem dinheiro e a morar numa cabana desengonçada; eu que atravessei tanta distância sozinho em carros a cair de podre atulhados de gente sem eira nem beira; eu que estive em lugares miseráveis frequentados por reses do piorio e comi sentado no chão em barracas sujas e dormi em pensões ranhosas no fim do mundo, eu que fiz isto tenho agora medo de sair em viagem.

Incrível, não é?!

Parece mentira!

Na verdade, eu sempre tive medo de viajar, sempre. Mas, naquele tempo, o medo espicaçava-me, fazia-me sentir vivo, mais vivo do que nunca. Por exemplo, quando atravessava bairros sombrios de madrugada a caminho da estação de transportes públicos, algures numa cidade perdida em Moçambique, de mochila às costas e cabelo ao vento, ou quando percorria uma estrada de terra batida à meia-noite rumo ao esplendor do nada, ou quando bebia um copo a conviver com desconhecidos de má figura em recantos perigosos, às vezes também maravilhosos, ou quando os mosquitos da malária me picavam sem piedade e a diarreia me exauria, em todas as circunstâncias era o medo que me empurrava, era o medo que me dizia vai, Duarte, vai, era o medo que me gritava vive, Duarte, vive.

E eu vivia sem medo de viver, eu ia sem medo de ir.

Agora, porém, estou aqui quieto.

Fecho os olhos e procuro coisas boas, só coisas boas.

Estou tão cansado do cansaço do mundo.

Digo coisas à-toa.

Tu, que amas, sabes quanto sofres.

Eu, que amo, sei quanto sofro.

A vida não passa disto, conjugado em todas pessoas e tempos.

Bom, o que eu devia fazer era dar um retoque em mim, cortar o cabelo e a barba, sobretudo a barba, eliminar o pelo grisalho e tosco, mostrar a cara, ficar a parecer mais novo, tipo 30 anos, um gajo de 30 anos, sim senhor, cuidar da roupa e do físico, ir ao ginásio, praticar musculação, caminhadas todos os dias, corrida, trail na serra – vamos! – natação, pádel, bicicleta, alimentação saudável, só erva e grelhados, meditação, ioga, menos vinho, mais água, menos sal, mais livros e por aí adiante como fazem os amantes da imortalidade e da eterna juventude.

É agora ou nunca. Vamos! Afinal, este pode ser o último dia antes do apocalipse. Ainda por cima, estamos na Páscoa, um tempo de sofrimento, de morte, de ressurreição, mas também de transfiguração. Vamos!