Breve tratado sobre a loucura

Naquela noite, uma legião de mosquitos, que pelo zumbido só podiam ser gordos e portadores de malária, perturbou-me o sono. Acordei várias vezes e por um instante não conseguia precisar onde estava. O pior, contudo, foram os sonhos. Sonhei que estava na sala de aulas a fazer a chamada e nunca conseguia chegar ao fim, porque eram milhares de alunos, todos muito indisciplinados. Eu ameaçava-os e ao mesmo tempo confundia-os uns com os outros. Eram todos iguais.

De repente, entra um tipo na sala e diz:

– Stôr, vou fazer a ligação elétrica.

E eu:

– Depressa! Vamos eletrocutá-los todos!

Por volta das cinco da madrugada os mosquitos amainaram e o sonho, que até aí voltava sempre ao princípio, mudou de figura. Dei comigo no meio de um deserto sem fim. Estava tudo calmo e o sol era intenso, mas não aquecia nada. Nisto, ouvi uma voz que falou assim:

– Vêm ali dois dromedários.

Com efeito, vinham dois dromedários na minha direção. Cada dromedário trazia uma pessoa montada. Um homem e uma mulher, precisamente o casal de turistas com quem estivera à conversa dias antes na vida real. Aqueles dois maldiziam tudo ao seu redor e mais alguma coisa, mas sentiam-se felizes, felicíssimos, o que me levou a pensar que um dos lados – o dizer ou o sentir – devia ser falso. Quando chegaram à minha beira, dentro do sonho, o homem disse em tom autoritário:

– Os seus alunos não sabem o que é um ditongo. Francamente, professor!

E a mulher acentuou com muita alegria:

– Francamente!

Enervado, virei-lhes as costas e pensei que devia exterminá-los e aos dromedários também. Mas, em vez disso, abri a Nova Gramática do Português Moderno. Folheei. Estudei um pouco. Depois virei-me e disse-lhes confiante:

– Vejam só, meus senhores, eles também não sabem o que são morfemas, nem desinências verbais, para já não falar de lexemas ou de coisas bem mais simples, como substantivos epicenos e verbos defetivos.

O tipo respondeu:

– É horrível!

A mulher, a rir, reforçou:

– É terrível!

Mas a sua voz desfez-se à medida que pronunciava a palavra.

Finalmente, acordei. Sentia-me amarrado à cama e nem sequer conseguia abrir os olhos. Um cansaço brutal! Uma coisa do outro mundo! Pensei que estava doente, talvez com febre. Mas logo verifiquei que não, eu não estava doente, eu estava era louco, louco e perdido. Este raciocínio trouxe-me à cabeça uma passagem de Ungulani Ba Ka Khosa que diz assim: “O branco da zona, num acesso de raiva, fechou a loja e disse a toda a gente que não mais viveria com os pretos.”

Nos momentos difíceis, naquele tempo e não só, naquele continente e nos outros também, ocorria-me sempre esta imagem e depois batia-me uma vontade desmedida de largar tudo da mão, ao que se seguia a voz de Mia Couto em poético sussurro explicativo: “Só há duas maneiras de partir: uma é ir embora, outra é enlouquecer.”

Eu estava claramente a enlouquecer, pois era incapaz de ir embora. Tudo o que me impelia a sair, impelia-me também a ficar. Era um feitiço. O feitiço da vida.

Esperei um pouco, assim colado à cama, até que a espera me conduziu à solução. O problema é o dinheiro, esclareci a mim próprio, mas sem perceber que tipo de relação existia entre uma coisa e outra. Ou melhor, o problema é a falta de dinheiro, dizia eu para me salvar. É por isso que te sentes angustiado e pensas que estás louco – por causa do dinheiro, do ouro. É isso. Nada mais.

Uma boa desculpa, não acham? O dinheiro é sempre uma boa desculpa. Tanto serve a felicidade como o horror e a loucura. De certa forma, isto é tudo o que se vê no mundo quando se olha com atenção para ele – loucura, horror, felicidade. Por isso, naquele dia – e nos outros também até hoje – levantei-me e segui em frente.