Santiago e os irmãos de Jesus (IV)

Para quem lê os evangelhos e reflete sobre o que leu, sem esquecer a mentalidade semita do tempo de Jesus, encontrará diversas referências aos irmãos de Jesus que não são filhos de Maria de Nazaré, mas de outros familiares de Jesus, até com o mesmo nome de Maria, ou então de Salomé. Segundo o evangelho de São Marcos (6,3) e de Mateus (3, 54-55) os irmãos de Jesus são quatro: Santiago, José, Simão e Judas, além de duas irmãs cujos nomes desconhecemos.

Quando Jesus visita Nazaré, após a manifestação messiânica do Jordão, os chamados irmãos de Jesus, ou ao menos alguns deles, não acreditavam no que acontecia com a sua pregação e milagres, e diziam entre si: “Donde lhe vem esta sabedoria e estes milagres?   Donde lhe vêm todas estas coisas? (Mt. 13,54-57). Esta situação modificou-se, após a Assunção de Jesus ao Céu e o Pentecostes, na comunidade judia cristã de Jerusalém encontrava-se: “Santiago, filho de Alfeu, Simão o Zelador, e Judas irmão de Santiago. Todos estes perseveravam unanimemente em oração com as mulheres e com Maria, mãe de Jesus, e com seus irmãos” (A. Ap. 1,13-14). São Paulo, muito mais tarde, na primeira carta aos Coríntios (1,14) menciona que, entre as pessoas que viram Jesus ressuscitado, se encontrava Santiago. Na comunidade cristã de Jerusalém, Santiago ocupava uma posição dirigente de relevo, de tal forma que São Paulo na carta aos Gálatas (2,9), coloca-o com Pedro e João como as “colunas da comunidade”.

Um dos momentos importantes que aconteceu no ano 49 d.C. foi o chamado Concílio de Jerusalém presidido por Santiago, embora nos evangelhos não se encontre intervenção alguma dele. No Calvário, narra São Mateus, “Estavam ali, olhando de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus servindo-o desde a Galileia. Entre elas estava Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.” São João por seu lado narra: “Estavam, de pé, junto à cruz de Jesus, Sua Mãe, Maria a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo.19,25). Dos discípulos, apenas João, filho de Zebedeu a quem Jesus confiou Sua Mãe, se encontrava no Calvário.

Alguns anos mais tarde Santiago escreveu a epístola que traz o seu nome, continuando a ser um fiel seguidor da Torah hebraica, frequentando o Templo de Jerusalém, ao mesmo tempo reconhecendo Jesus como Messias e, conquistando muitos hebreus a seguirem Jesus. Importante, como veremos mais tarde, foi a ajuda prestada em Jerusalém a São Paulo quando vindo de Cesareia “com alguns discípulos, foi a casa de Tiago”, o único que ainda restava das “três colunas da Igreja”. O historiador judeu Flávio Josefo, chama-o “Tiago, o irmão de Jesus, chamado o messias”.

Quanto aos outros “irmãos do Senhor,” sabemos apenas algumas notícias transmitidas pelo judeu convertido Hegesipo, cujos escritos foram conhecidos e consultados pelo grande historiador Eusébio de Cesareia. Escreveu Hegesipo que “as irmãs de Jesus se chamavam Salomé e Susana e que o Novo Testamento tem uma carta de Judas que se apresenta como irmão de Santiago”.

Eusébio de Cesareia, na célebre História Eclesiástica, narra que no tempo do imperador Domiciano foi detido um dos “irmãos de Jesus” por receio que, sendo da descendência de David, pudesse revoltar-se contra Roma. Depois de o interrogarem concluíram que era inofensivo e foi colocado em liberdade. O último familiar de Jesus conhecido foi Colson, filho de um irmão, que foi martirizado no início do século II, encontrando-se o seu túmulo em Nazaré, dentro do recinto da Basílica da Anunciação.

Os “irmãos de Jesus” formavam uma verdadeira família, com a particularidade de estarem abertos aos pobres, aos marginais, aos últimos, diversos de outras fraternidades religiosas dessa época.