Vamos embora para casa!

Em viagem – escreve Salazar Silva na sua obra-prima “Cadernos Para Um Despertar”, na edição revista e ampliada de 2020 –, a raiz do desespero é saudável. Por isso, devemos sempre prolongá-la o mais que se puder, pelo que é bom ficarmos, de vez em quando, sem dinheiro. Quando nos falta o dinheiro em viagem, enfrentamos uma grande angústia e somos obrigados a retardar o regresso a casa e a procurar ajuda. As duas coisas são boas, porque são humanizantes, estimulantes e reveladoras, mas também perigosas. Muita gente perde a vida ou descobre a imortalidade por causa delas.

Por vezes, uma pessoa é levada a resumir-se a uma tal insignificância como nunca pensou que fosse possível, nem mesmo quando os pensamentos se perdem em zonas pantanosas, como são as da morte e esta agora também, esta tragicomédia apocalíptica com laivos de ficção científica que nos preenche os dias. Por isso, a raiz do desespero é saudável em viagem, porque uma pessoa nunca pensa que vai morrer. O espírito é sempre orientado para a sobrevivência. O espírito quer sobreviver. O espírito está sempre atento e desperto. O espírito quer viver.

A morte não interessa para nada, sobretudo em viagem. A morte é um predicado que diz respeito apenas ao corpo, essa massa pomposa e viscosa que quer ser príncipe a toda a hora e detesta o génio sem demora. O espírito não a quer para nada. O espírito quer a vida eterna, até mesmo quando dá sinal do contrário.

Por isso – diz Salazar Silva –, viajar é importante.

Viajar nunca deixa o espírito morrer e até salva alguns medíocres do abismo. Salva-os do embrutecimento, salva-os da ignorância, salva-os da arrogância e de todos os males da cabeça e do coração que afetam milhões de indivíduos. A bem dizer, são males que afetam mais ou menos toda a gente à face da terra. A vaidade do imbecil é uma doença pandémica que toca em toda a humanidade. Basta assistirmos a dois dedos de televisão para percebermos que assim é.

A televisão, diga-se de passagem, é um excelente aparelho de diagnóstico da humanidade. É como uma máquina de Raios X, ou como uma microcâmara endoscópica, ou como um daqueles cilindros assustadores onde colocam uma pessoa para fazer exames e concluir que ela vai morrer. Pela televisão se descobre todos os males da humanidade, mesmo quando parece que estamos a ver o seu lado mais saudável, como acontece, por exemplo, no canal Travel. Pela televisão se vê que a humanidade tende a resumir-se cada vez mais a uma corja infame e, também por isso, volto a dizer que viajar é fundamental.

A viagem – e note-se que, segundo Salazar Silva, escrever, tal como viver, também é viajar – remete-nos para o mundo e para a humanidade sem artifícios, de modo que nos ajuda a fortalecer o espírito, não no sentido da pedra ou do aço, mas no sentido da nobreza, da elevação e da distinção. Mas, por favor, por favor, meus senhores, afastemo-nos dos périplos de sete dias que nos levam como parvos aos sítios mais estranhos do mundo, precisamente àqueles aonde nunca, jamais, jamais, se deve ir acompanhados, lugares de peregrinação, por exemplo, ou de sonho, onde achamos tudo muito bonito e fascinante, sim senhor, tudo muito colorido e perfumado, mas onde acabamos sempre por concluir que não há gente como a gente, nem há terra como a nossa e, depois, olhamos uns para os outros como tontos e dizemos cheios de alegria:

– Vamos embora para casa!

Por favor, não façam isto!

Se for para fazer isto – sublinha Salazar Silva na sua obra-prima “Cadernos Para Um Despertar” –, é melhor ficarem em casa, diante do televisor ou de outro aparelhinho do género. Com o tempo – agora mais do que nunca – pode ser que descubram a gravidade da doença que nos afeta e decidam contribuir para a salvação do mundo.