Papa rejeita renúncia do cardeal de Munique e defende mudança na Igreja Católica

Lusa

O Papa Francisco rejeitou hoje a renúncia apresentada pelo cardeal Reinhard Marx ao cargo de arcebispo de Munique e reforçou a necessidade de mudança na Igreja Católica devido à “catástrofe” dos abusos sexuais.

“Concordo contigo ao chamar de catástrofe a triste história de abuso sexual e a maneira como a Igreja lidou com ela até recentemente. Perceber essa hipocrisia no caminho da fé viva é uma graça, é o primeiro passo que devemos dar”, refere Francisco na carta em que rejeita a renúncia apresentada pelo cardeal e divulgada pelo Vaticano.

Na semana passada, Reinhard Marx, antigo presidente da Conferência Episcopal alemã, pediu ao Papa Francisco para ser dispensado das suas funções, reconhecendo "um fracasso" da Igreja Católica na "catástrofe dos abusos sexuais" na instituição.

Este pedido de renúncia foi uma forma de partilhar a responsabilidade pelos crimes cometidos ao longo dos anos no seio da Igreja Católica.

"Para mim, trata-se essencialmente de partilhar a responsabilidade pela catástrofe dos abusos sexuais cometidos por responsáveis da Igreja durante as últimas décadas", justificou Marx na missiva.

O papa considera que “a Igreja não pode hoje seguir em frente sem assumir esta crise” e rejeita uma “política da avestruz”, frisando que é necessário assumir a crise, “pessoal e comunitariamente”.

“Não se pode ficar indiferente diante desse crime. Assumir isso significa colocar-se em crise”, escreve Francisco, sustentando que nem todos estão dispostos a “aceitar essa realidade”.

O papa defende que “cada bispo da Igreja deve assumi-lo e perguntar o que devo fazer diante desta catástrofe”.

Na carta, Francisco assume os erros cometidos no passado, realçando que a Igreja “tende a esconder os seus pecados” e rejeita que a solução da crise venha pelo “poder do dinheiro ou opinião dos media”.

O arcebispo de Munique é membro do Conselho de Cardeais, organismo criado por Francisco para a reforma da Cúria Romana, e coordenador do Conselho para a Economia, da Santa Sé.

Em março, um relatório independente pedido pela Igreja Católica na Alemanha concluiu que 314 menores sofreram violência sexual por parte de 202 membros do clero e leigos entre 1975 e 2018 na diocese alemã de Colónia.

Mais da metade dos abusos envolveram crianças menores de 14 anos, principalmente meninos, indicou o advogado Björn Gercke, durante a apresentação do relatório de cerca de 800 páginas sobre a maior diocese da Alemanha.