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Artigo de Opinião

23/04/2024 08:00

Está aí à porta a comemoração do quinquagésimo aniversário da Revolução dos Cravos. Prevê-se, e compreende-se, que se encham bocas com Liberdade. Também se prevê, menos compreensivelmente e como vem sendo infeliz hábito, que haja quem se apresente como dono dela e aponte o outro como inapto à sua comemoração. São estes os que perderam a Revolução a 25 de Novembro de 1975 e, por isso, não querem juntar esta segunda efeméride, inseparável da primeira, a estas comemorações — ou sequer lembrá-la. Isto de ter Liberdade sem serem eles a distribuí-la com cuidada parcimónia e sem oposição é doloroso demais — compreendo. Ainda por cima, nestes últimos tempos, a tão amada Liberdade tem sido algo maltratada, mesmo no país que agora diz comemorar 50 anos dela.

É sabido, espero, que sem que cada um de nós possa pensar e expressar-se por si, a Liberdade não existe. Dizer o que nos vai na alma, mesmo que outros se ofendam com palavras (coitados...!), é condição essencial para que sejamos também livres no pensamento. Defender a Liberdade é também defender a Liberdade do outro a dizer asneiras, por mais que nos ofendam.Não quer isto dizer que tenhamos qualquer obrigação em os ouvir, ou com eles conviver, mas não podemos impedir que se exprimam, até porque isso seria uma dupla infracção da Liberdade alheia: estaríamos também a impedir outros de os ouvir, ou ler — a infringir a sua Liberdade.

Os jovens que se manifestam fervorosamente para que este ou aquele indivíduo não fale em público, ou que exigem que um estabelecimento de ensino despeça professores por terem a opinião política errada, não estão a respeitar Abril; não estão a celebrar a Liberdade, antes a ofendê-la.

Se o argumento da Liberdade não bastar para convencer quem defende a proibição de partidos, ou o silêncio da opinião contrária, imaginemos o que implica evitar qualquer discussão: a nossa imagem do mundo passa a ser, erradamente, a de que toda a gente pensa como nós. A nossa ideia deixa de ser testada e deixamos de ter de a defender, o que nos leva a nem a considerar a sério. O outro, silenciado, não deixa de pensar o que pensa, antes pelo contrário. O silenciado deixa de ser confrontado com as suas ideias, de as ver testadas e contrariadas. Um dia explode, sem oposição. A Liberdade de expressão é útil também para sabermos o que e como pensa o outro, até porquê. É útil para que possamos contrapor ideias de que não gostamos, eventualmente até convencer o outro — por pouco que seja. De qualquer das formas, silenciar o outro é sinal de preguiça ou incapacidade para defender a nossa posição.

Vou-me repetir, para que não haja dúvidas: se eu não quiser ouvir, ou ler, uma determinada ideia ou argumento, tenho a Liberdade de não ficar para ouvir, não ler, ou mandar sair de minha casa. Se eu defender que se impeça outros de ouvir, ou ler, essa mesma ideia ou argumento, então eu estou a infringir a Liberdade do mensageiro e de quem o queria ouvir ou ler.

Sempre que o debate é cerceado, a Liberdade sofre. Defender a censura em defesa da Liberdade é a maior mentira que podemos dizer a nós mesmos. Defender a censura enquanto comemoramos a Liberdade é o cúmulo da hipocrisia.

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