Um simples papel com uma seta à beira da estrada conduz a um dos presépios caseiros mais impressionantes da Madeira. No alto do Caminho das Voltinhas, encontrámos um mundo inteiro em miniatura que nasceu da memória, da fé e das mãos de Benigna Gonçalves. Deste encontro resultou a reportagem deste domingo no âmbito da rubrica ‘Perdidos e Achados’.
Um papel plastificado, simples, preso à beira do caminho, com uma seta e a palavra ‘Presépio’. Foi esse sinal, um dos que mais faz brilhar os olhos na época entre o Natal e os Reis, que nos fez abrandar, sair da estrada principal e enfrentar a subida íngreme que começa junto à Igreja Matriz da Ribeira da Janela. O Caminho das Voltinhas, como o nome indica, levou-nos por curvas apertadas, inclinação exigente e a sensação de que estamos a entrar num lugar que não se revela facilmente. No número 13, depois da subida, o Natal abre-nos a porta.
Batemos. Do interior da casa responde uma voz quente, firme e acolhedora. “Entre, esteja à vontade.” É Benigna Maria Gonçalves da Silva quem nos recebe, com um sorriso contagiante e uma hospitalidade que parece antiga, quase de outros tempos, como se alguma vez nos tivéssemos conhecido. Lusovenezuelana, filha de mãe do Arco da Calheta, nasceu em Maracay, na Venezuela, mas carrega a Madeira como raiz e destino.
Um compartimento da casa, uma antiga loja agrícola onde se guardavam sementes, se pendurava o porco para a matança e onde ainda resiste um lagar com cerca de 120 anos, foi completamente transformado. O espaço escurece ligeiramente e, de repente, o olhar perde-se num cenário vasto, minucioso e quase vertiginoso. Luzes cintilam discretamente, há musgo a cobrir encostas, grutas escavadas na rocha, rios imaginados, aldeias inteiras em miniatura.
Veja as imagens:
O presépio não cabe num único olhar. Obriga a parar, a aproximar-se, a voltar atrás. Seriam precisas horas para contemplar cada detalhe entre as mais de mil figuras que ali convivem, e para viajar cada canto do mundo ali representado. “Tenho algumas figuras guardadas, outras faço de novo. Desmonto umas coisas para fazer outras.” Nada ali é definitivo. O presépio está vivo, em permanente transformação.
Leia mais sobre o megapresépio de Benigna Gonçalves nos ‘Perdidos e Achados’ desta semana, na edição impressa de hoje do JM.