Os mendigos das ilhas

Só o trabalho não chega. Na grande maioria dos casos é preciso pedir e pedir, uma e outra vez, para sermos (re)compensados. E mesmo assim…

E não, não pensem que se trata de reconhecimento, porque a ‘pancadinha nas costas’ não enche o frigorifico nem paga as contas lá de casa. Falamos de justiça social.

O exemplo, aliás, devia vir de cima. De quem escolhemos – pelo menos a maioria – para governar o País. Ou melhor, o exemplo até vem… só que no pior sentido possível. E alguns seguem-no na perfeição.

De facto, nem é preciso ser contabilista para nos apercebermos de que Portugal só pode ser vendido como destino para turistas. Quem por cá vive ou é devidamente recompensado para fazer face ao altíssimo custo de vida ou terá de fazer como tantos outros e procurar a sorte noutros países.

Senão vejamos. O Estado português está no topo dos rankings mais indesejados dos 38 países que compõem a OCDE. É o 3.º pior no índice de competitividade tributária internacional, entra também no top 5 dos países que mais impostos cobram sobre o rendimento dos trabalhadores e, face ao IVA de 23% (menos 1% na Madeira) sobre a maioria dos produtos, é igualmente dos que mais depende dos impostos ao consumo, que representam cerca de 40% do total das receitas fiscais.

Quem vive na Madeira, porém, debate-se com dificuldades acrescidas, porque a linha que separa a ilha do território continental é, efetivamente, bem acentuada.

A rifa da insularidade (dupla no Porto Santo) é desconsiderada. A continuidade territorial termina quando chegamos ao oceano Atlântico e a nossa portugalidade, que nos devia facilitar a integração no todo nacional, sai-nos mais cara do que para quem nos visita.

De nada vale ouvir ministros ou secretários de Estado penitenciarem-se sobre as injustiças do subsídio de mobilidade. Porque em 2023, a ordem é mesmo para continuar como está: quem tem dinheiro para pagar viagens de 900 quilómetros que custam os olhos da cara… viaja. Quem não tem, passeia a sua portugalidade à beira-mar e acaba sentado numa qualquer esplanada. Também tem o seu lugar, diga-se.

De nada vale pedir atenção para os nossos estudantes deslocados, reclamar melhores salários imputando essa responsabilidade apenas às empresas. De nada vale pedir mais polícias nas ruas… Porque o autismo prevalece, invariavelmente, na forma como o Estado se relaciona com as ilhas. Se for bom para o partido, dá-se um jeito, se não, tira-se partido por outra coisa qualquer.

Dá jeito, pois, que Cristiano Ronaldo vá abrindo noticiários por bons ou maus motivos. Pelo menos distrai a malta. Se Ronaldo marca, é notícia. Se não marca, é notícia também, claro. E agora, novidade das novidades nesta reta final de carreira é também notícia pelo que diz e o que não diz.

E assim vai o País, à boleia de um madeirense, símbolo de uma Região que tem de mendigar na República. Vá lá que pelo menos agora até está desempregado e fica o retrato mais adequado. Até tem mais tempo para começar a fazer uns ‘carunchos’ pela seleção nacional. Que faça um bom trabalho, como fez no primeiro jogo, mas não espere reconhecimento consensual. Os que dizem mal antes, ficam calados depois.