Internet e redes sociais, amigos ou inimigos?

Há umas décadas, quem diria que poderíamos conectar com amigos e familiares que estão do outro lado do mundo com apenas uns pares de cliques? A internet, e as redes sociais em particular, vieram revolucionar o mundo que os nossos pais conheciam. De um momento para o outro, cartas e postais deixaram de fazer sentido quando bastava fazer login no MySpace, Hi5 ou MSN para saber o que os outros estavam a fazer. Hoje em dia, as redes sociais dominam com plataformas para todos os gostos e feitios. Mas o que começou com a simples ideia de reunir famílias e amigos de infância, hoje é um monstro social com a capacidade de arruinar vidas.

E contra mim falo, que trabalho em comunicação, em Bruxelas, onde uma das minhas tarefas é gerir e criar conteúdos para os sites e redes sociais da minha empresa. Mas não consigo deixar de sentir um sabor agridoce quando leio notícias como a de Archie Battersbee, o menino de 12 anos estava em coma desde Abril, na sequência daquilo que a sua mãe acredita ter sido a sua participação num desafio do Tiktok. E quem fala de Archie pode falar de outros casos que vieram a público de crianças e jovens que puseram a vida em risco para completar desafios descabidos.

A maioria das pessoas utiliza a internet e as redes sociais de uma forma ou outra. Embora não haja nada de inerentemente errado com isso, e embora as redes sociais possam por vezes ser benéficas, é importante estar ciente de que estas estão associadas a uma série de questões e perigos potenciais, incluindo stress, ansiedade, solidão e depressão. Além disso, há o ódio gratuito online. Nas redes sociais, uma pessoa está muito mais exposta à opinião dos outros e à maldade alheia.

Uma investigação recente do Wall Street Journal revelou que a empresa Meta (dona do Facebook, WhatsApp e Instagram) estava consciente dos riscos de saúde mental ligados à utilização do Instagram, mas manteve essas descobertas em segredo. A investigação trouxe a público que o Instagram agravou os problemas de imagem corporal de uma em cada três adolescentes, e todos os utilizadores adolescentes da aplicação ligaram-na a experiências de ansiedade e depressão.

Desde a pandemia, a mudança para o mundo digital tornou-se ainda mais óbvia. Temos confiado na internet/redes sociais para nos mantermos em contacto com amigos e familiares, comprar novos produtos e trabalhar a partir de casa.

Em Maio, a Comissão Europeia adoptou uma nova estratégia intitulada Uma Melhor Internet para Crianças, de modo a melhorar os serviços digitais adequados à idade e para assegurar que cada criança seja protegida e respeitada online. Noutros países, como é o caso do Japão, bullying online já dá um ano de prisão. A UE delineou também uma estratégia de cibersegurança para aumentar a capacidade da Europa para lutar e recuperar de ciberataques.

É claro que nem tudo é mau no digital. Durante a pandemia, por exemplo, as redes sociais permitiram que as pessoas se conectassem de novas formas quando a socialização em pessoa não era possível. Mas o poder que estas plataformas possuem – influenciar eleições, destilar ódio, dar força a movimentos anti-direitos humanos, proliferar notícias falsas que vão contra a saúde humana como aconteceu com as vacinas – é demasiado grande. Não cabe só aos governos encontrar maneiras de legislar este poder. É também um exercício individual o de procurar entender os riscos e os perigos e quiçá usar as redes sociais q.b.

Porque um grupo de WhatsApp não substitui uma mesa de amigos nem um jogo online substitui jogar à bola com uma baliza improvisada na rua, durante uma tarde de verão. É importante saber distinguir o mundo virtual e o mundo real.