Engenhos da violência doméstica

Enquanto existir, nunca é demasiado voltar a falar de violência doméstica. E o que eu sei sobre isso? Não sou especialista no assunto, há outros que o são, mas eu não sou. Vejo infelizmente as consequências nas vítimas e faço o que tantos outros fazem, tentar ajudar a pessoa, a vítima, a ultrapassar o que passou.

Vejo assim, regularmente as consequências da violência e por vezes, os caminhos que conduzem a ela. Ouvimos histórias de vítimas. Ouvimos histórias de agressores. Ouvimos as histórias de filhos e de pais, de companheiros,... fica claro que a violência é mais frequente do que gostamos de pensar, muitas vezes psicológica e algumas vezes física.

Como continuamos a permitir que existam estas formas de violência? Em primeiro lugar porque nos ensinaram assim. Crescemos a ouvir que se não nos portarmos bem, vai acontecer isto ou aquilo. Quantas formas de violência e manipulação psicológica fomos sujeitos para nos comportarmos civilizadamente? E como adultos, quantos justificam rapidamente a necessidade de recorrer à violência como resposta?

Ao longo do crescimento académico, também fomos expostos a pressão, ameaças e outras situações de violência psicológica e física. Muitas por parte de colegas, outras por parte de adultos. E o que sobra? Pessoas formatadas a realizar violência sobre os outros e a aceitar a violência que exercem sobre si.

Estamos tão habituados a pensar no desfecho que, se queremos mesmo mudar e acabar com a violência doméstica, temos de pensar na sua origem, na origem da violência. A maioria das pessoas não nasce e decide que vai fazer mal aos seus familiares. Infelizmente, há um conjunto de eventos que juntos terminam da pior forma. Esses são os mais importantes para travarmos e mudarmos as consequências.

A saúde mental é apenas uma parte da prevenção da violência doméstica. Um dos eventos mais próximos da violência é o consumo de substâncias, do qual o álcool faz parte. É provavelmente a substância legal com maior relação com a violência. A típica história de violência doméstica portuguesa associa frequentemente a pessoa alcoolizada como o perpetuador da violência. Muitas famílias do nosso país sofrem regularmente as consequências da violência associada à intoxicação alcoólica. Com a utilização cada mais frequente de outras substâncias, incluindo as Novas Substâncias Psicoativas (onde se inclui o conhecido “bloom”), mantém-se o padrão da violência doméstica, que em vez de diminuir, mantém-se e quem saberá, aumenta.

Assim, um dos passos mais importantes na prevenção da violência, é a prevenção do consumo de substâncias, de álcool. Claro que a população que bebe habitualmente álcool pode não compreender estas afirmações, mas atrever-me-ia a dizer que mais do que não compreender, não aceita.

Mas a substância só explica parte do problema. Infelizmente a violência ou o comportamento violento pode existir em qualquer pessoa. Os ingredientes para ativá-la são diferentes para cada um. Para os mais civilizados apenas os estímulos mais cruéis ou mais idealistas ativam o comportamento violento. Exemplos são filhos a serem maltratados, ou a invasão do nosso terreno/país. Isto depende do equilíbrio entre a genética, o desenvolvimento e o autocontrolo do momento de cada um de nós.

O que afeta o nosso autocontrolo facilita o descontrolo e as substâncias são um dos facilitadores. Outros facilitadores são o cansaço, a insónia, o sofrimento mental. De diferentes formas o sofrimento pode impulsionar a violência. O sofrimento conduz tanto à violência contra o próprio, como contra terceiros.

Urge assim continuarmos o caminho da civilização, do crescimento pessoal e social. Sem este crescimento, estaremos sempre à espera da próxima crise, da próxima guerra. Este caminho depende da existência de bons serviços de Saúde Mental, de apoio social, de boas estruturas de educação e de justiça, de oportunidades de crescimento e realização pessoal.