É verão, pois claro

Cada estação envolve-nos duma forma própria.

O verão, a  «silly season», como sói dizer-se, é tempo de relaxar, descontrair, abrandar.

É a estação em que adormentam as notícias, as novidades congelam. Parece que deixou de ser assim. Basta ver o que nos tem dado o futebol e o covid…

Verão

Era a corrida, mal acordava o sol, ao «Poço dos Pretos», água fria e corrente da ribeira, ou ao «Fojo», onde mergulhávamos a partilha da amizade.

De vez em quando lá formávamos romaria à Cana Vieira, onde o mar sabia a privado.

Eram mais saborosas as ameixas, os figos, as uvas  e os abrunhos à mão de quem quisesse.

As amoras pintavam-nos os lábios e rasgavam-nos a pele.

Aqui e além, cantavam ceifeiras, abraçando o trigo loiro, face morena lavada em suor, que a foice era de manejo duro.

Nas eiras, afagadas de bosta de vaca, para tapar as fendas, abertas pelo calor na terra barrenta, os manguais batiam ritmados, fazendo saltar as sementes das espigas fartas. Os homens eram orquestra afinada, sob a batuta de um maestro experiente, que comandava as operações.

Pelas encostas ecoavam as debulhadoras, na dolência do seu cantar monocórdico.

Quando era o giro da rega, em noites longas e quentes, à luz tremelicante das lanternas, ouviam-se os gritos: taaaapaaa!  Mudavam-se, então, os trapos para o rego seguinte até o fim do poio.

O verão era um convite à diferença.

Tudo combinado, lá íamos de mochila às costas para o acampamento. Canções ao luar, refeições aprendidas à pressa, cama de folhas macias, ocupação de dia inteiro, bebendo a natureza que íamos desbravando e absorvendo.

No dia marcado, a presença na biblioteca itinerante Gulbenkian, para a troca de livros. Um serviço que semeou diversão e cultura, com a simpatia do senhor Manuel Campanário.

Devorávamos as aventuras de Búfalo Bill, a saga do oeste americano, de cossacos e mongóis. A Volta ao mundo em 80 dias, as Aventuras de Tom Sawyer. Mas também as Pupilas do senhor Reitor, as Viagens na Minha Terra.  E mais tarde, as Sandálias do Pescador, o Quo Vadis, o Amor de Perdição.

Na rádio, os serões para trabalhadores, da Emissora Nacional, de mão dada à Fnat, traziam-nos as vozes da Maria Valério, da Maria Clara, do Alberto Ribeiro, da Maria de Lourdes Resende, do Trio Odemira, do Fernando Farinha, do Tristão da Silva, da Teresa Noronha, da Amália e de tantos.

A música ao gosto do ouvinte, depois da frase anúncio que dava acesso ao pedido, trazia-nos a novidade, apresentou-nos os Beatles, o Elvis Presley, o Cliff Richard e os The Shadows.

O campeonato de 1966, visto num restaurante que passou a chamar-se Televisão, os poucos sítios onde se viu em direto o jogo de Portugal- Coreia do Norte, tornou famoso o Pantera Negra, marcando 4, dando a volta de uma derrota por três para uma vitória por cinco.

O verão era também das festas e arraiais, das bandas nos coretos.

Dos «bailinhos», onde volteávamos a valsa, ensaiávamos o Twist. E quando, à média luz, surgia a «música para constituir família», os corações batiam fortes. Muitos namoricos nasciam ali, uns de morte repentina, como era comum nos compromissos de verão, outros cimentados para uma vida.

O verão que começava nos Santos Populares, com as fogueiras da véspera, que nos queimavam pestanas e cabelos, as sortes dos ovos em copos de água, o enfeite dos fontenários, as ceias no calhau, o reflexo da imagem no mar, os banhos em água lampa, os vasos de flores trocados de quintais ou levados ao adro, com a barafunda do dia  seguinte… desaguava na  partida dos veraneantes, no regresso às aulas ou  ao trabalho…

A brisa fria, de sabor outonal, consolidava a mudança e a promessa de que para o ano haveria mais.