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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

9/02/2024 08:00

Diz-se, na ilha, que Dona Beleza é virgem e ninguém pode provar o contrário. Nem mesmo o juiz Amândio Agott, seu amigo de infância e confidente de sempre. Houve um tempo em que se pensava que os dois tinham um caso, mas depois descobriu-se que as preferências do juiz eram outras, quando o encontraram a dormir nos braços de um marinheiro, ambos nus e bêbados, num barracão do porto.

O juiz – que nas costas todos tratam agora por ‘a Juíza’ – caiu em descrédito e afundou-se ainda mais no álcool e Dona Beleza, por seu lado, recuperou a virgindade.

Voltaria a perdê-la, por um breve instante, alguns anos depois, quando Panga Nanne, o dono do hotel, a viu numa situação deveras estranha e embaraçosa.

Seriam três da madrugada quando ele acordou com o ruído da porta do quarto a abrir e a fechar. Numa primeira e estremunhada avaliação, pensou que alguém tinha entrado e ficou cheio de medo e apeteceu-lhe chorar e chamar pela mãe, morta há tantos anos, coitada, como fazia em miúdo, quando as sombras da noite o ameaçavam. Depois, percebeu que estava sozinho e concluiu que, afinal, alguém tinha era saído do quarto. Um ladrão, só podia ser, dado que hotel estava vazio.

Então, perdeu o medo e levantou-se, pegou na catana – a enorme faca de mato herdada do avô desempenhava a dupla função de peça decorativa e arma de defesa – e foi, cauteloso, fazer uma vistoria ao edifício.

Pouco a pouco, verificou que tudo estava conforme, mergulhado em breu e silêncio e sentiu-se um nadinha desiludido. A sua vida era tão vazia! Tão parca em emoções fortes! Mas o que fazer? Enfim, era tempo de regressar ao quarto.

Antes, porém, decidiu espreitar a noite através da janela do restaurante e foi então que viu o absurdo. No meio da praça, o Muluko, o Doido, e Dona Beleza, a Virgem, estavam envoltos num abraço, esquecidos num beijo. Dona Beleza envergava uma camisa de dormir alada e transparente, via-se-lhe o corpo perfeito atravessado pelo luar, e Muluko, o Doido, apresentava-se sujo e andrajoso como sempre.

Panga Nanne, o dono do hotel, deixou cair a catana do avô no chão e esfregou os olhos com as duas mãos e quando recuperou o norte a praça estava deserta, silenciosa e escura.

Dona Beleza teria perdido a virgindade para sempre naquele momento se no lugar de Muluko, o Doido, ele tivesse visto outro indivíduo. Mas tratando-se de Muluko, o Doido, permaneceu imaculada. Além disso, Panga Nanne não teve coragem de contar a ninguém o que vira, pensando – e bem – que o iam considerar ainda mais doido do que Muluko, o Doido.

Naquela época, o pai de Dona Beleza ainda era vivo e ela tinha uma vida folgada de menina rica, pelo que andava sempre a inventar coisas para fazer. Contudo, não era capaz de se concentrar em nada. Ainda mal tinha começado uma actividade e já se aborrecia de morte, bocejava sem fim e pensava noutra. Foi assim com o bordado, com a pintura, com o piano e o violino, com os passeios a pé, com a criação de coelhos brancos.

À data da morte do pai, Dona Beleza era professora primária. Mas também aqui, passado o entusiasmo inicial, as aulas consistiam em estranhos e confusos trabalhos de investigação. Ela entrava na sala sem saber o que fazer, ficava esbabacada a olhar para os miúdos, estes de igual modo a olhar para si, e depois ordenava que fizessem um trabalho sobre a primeira coisa que lhe ocorria: borboletas, oceanos, máquinas a vapor, o primeiro rei da Noruega, dinossáurios. E lá iam os alunos – crianças de sete e oito anos – em grupo para a Biblioteca Municipal e ali ficavam o dia à toa, pois na verdade ainda mal sabiam ler e escrever. No dia seguinte, nem os alunos apresentavam o trabalho, nem Dona Beleza se lembrava do que tinha mandado investigar.

Por isso, começaram a dizer que ela andava metida com alguém às escondidas, mas, na verdade, o seu estado de pureza mantinha-se inalterado.

Dona Beleza é virgem e, na ilha, ninguém pode provar o contrário.

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