A recente visita da Inspeção Regional de Atividades Económicas ao Mercado de Santana chocou meia Madeira e silenciou a outra metade.
Na verdade, o que aconteceu foi muito mais do que um simples episódio. Foi mais do que uma inspeção com maus modos. Foi superior à humilhação de partir dúzias de ovos a quem os queria vender. Foi bem para lá de uma advertência ou de uma manifestação autoritária.
O que aconteceu em Santana foi um aviso sério contra a nossa identidade. Foi o início de mais uma machadada naquilo que são as nossas tradições e o que nos define como povo ilhéu. Com virtudes e defeitos, com coisas nossas!
Não está em causa, apenas, um pão eventualmente duro, umas caixas de ovos sem data de validade ou umas garrafas de mel sem rótulo.
O que fica daquele episódio é a atitude e o enquadramento legal que a sustenta e que importamos do centro da Europa sem qualquer esboço de crítica ou singelo reparo. Alguém disse que é para fazer assim, outros escreveram em forma de lei que é assim e vem tudo por aí abaixo.
O pão caseiro já não é apenas amassado. É também ameaçado por uma série de regulamentos desenhados em gabinetes e aos quais a Madeira pode responder de duas formas: Sim, ou sim senhor!
O que começa a acontecer com o pão caseiro, seja de Santana ou de qualquer outra localidade, já aconteceu com o vinho caseiro. O vinho seco, feito de diferentes castas e pés descalços, desapareceu dos balcões das tascas. Com ele, saíram também as vasilhas e as pipas de madeira que preenchiam as lojas dos agricultores madeirenses e davam que fazer aos tanoeiros que deixaram de existir.
E o que aconteceu com o vinho e vai acontecer com o pão de casa, também já atingiu a ginja feita de forma artesanal. O mesmo com os licores, incluindo os da Festa, que agora parecem fruto de perigoso contrabando doméstico.
Idêntico caminho seguem outros produtos, como o mel e os ovos.
Não se discute aqui a necessidade de defender regras básicas como a higiene, a saúde e os rótulos de bens colocados à venda. Muito menos os malefícios de alguns produtos como o vinho seco ou as aguardentes de fabrico artesanal e ilegal.
O que se destaca é a forma mansinha como entram regras feitas lá longe e que pontapeiam ainda para mais longe os nossos costumes.
Depois admiramo-nos por encontrar ‘pão caseiro’ à venda nas padarias ou nos supermercados. Ou por proliferar vinho martelado em pacotes de quarto litro. Ou por ter nas grandes superfícies bolo do caco que nunca passou por caco nenhum, nem sabe a brasa, nem a fumo, nem a fogo, nem a nada.
Pior: admiramo-nos com terrenos baldios. Pudera, vão os agricultores trabalhar a terra em espaços diminutos, de dificílimo acesso, para terem de criar pequenas empresas e pagar grandes impostos? Claro que não!
E tudo isto remete para uma tentativa de harmonização coletiva que coloca no mesmo patamar o dono de um poio com um galinheiro em Santana e o latifundiário da França ou da Alemanha.
Esquecem os burocratas de Bruxelas e seus parceiros nacionais, que o primeiro vende 500 quilos de semilhas e 200 ovos por ano, enquanto os segundos armazenam toneladas de batata e milhões de ovos. O primeiro mete tudo em sacos e caixas mal-amanhadas para o mercado local consumir em poucos dias; os segundos podem acondicionar tudo devidamente para colocar no mercado europeu ao longo de semanas.
Entre um e outros, há uma grande distância e um abismo de identidade cultural e social.
Quem não entender esta diferença, nunca vai perceber que esta perseguição aos pequenos produtores e vendedores não afeta apenas os seus micro negócios. Leva por tabela os consumidores locais.
No caso dos produtos alimentares, não é apenas o sabor que se perde. É, sobretudo, o saber.