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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

24/09/2023 08:00

Também eu teimo que me lembro do mestre Adriano a taquear a nossa casa, e consigo ver o Marquês bebé, que era da minha idade, a fazer chichi nos tacos e o mestre Adriano a lhe esfregar as ventas no chão na poça de mijo para que ele aprendesse que aquilo não se fazia. Quando eu dizia isto, minha mãe ria-se a caçoar de mim. Com o folhão é o mesmo. Está na gaveta das coisas mais distantes e aconteceu muito antes "d´América". A América é um marco tão grande na nossa vida, que há um antes e um depois. Mas isso é outra história.

Hoje é o folhão. Pois sim! Nesse tempo, não havia água canalizada nas casas e era preciso acartá-la da fonte ou das nascentes que brotavam do útero da terra. A senhora Maria José de Umblina tinha a sorte em ficar com o sobejo da fonte que havia no fundo do ribeiro e que era do meu ano, 1966. Não sei quem lhe arranjou aqueles tubos de ferro pelo ribeiro abaixo até ao bidão, onde caía uma bica de água cristalina à sombra dos fetos tão viçosos. Com que água fresca ela lavava a sua roupa alva de neve e o seu vestido de viúva! O poço de lavar, encavalitado na parede do ribeiro é que tinha sido a primeira obra de mestre pedreiro do senhor Zeca e já lhe faltava uma canela e o lavadouro era liso sem aquelas levadinhas para esfregar bem a roupa. Mas era um grande desenrasque ter uma coisa daquelas à porta de casa. Lembro-me, como se fosse hoje, da senhora Maria José contar que o poço tinha ficado assim mal feito por causa da senhora Bega, sua sobrinha afilhada, que tinha a mania de que era tudo dela e que tinha ficado estuporada por não ter sido consultada naquela empreitada, como mandava a lei. O terreno era todo do falecido pai dela, por ele ser o mais velho e por causa do tio Camacho que pôs tudo no nome dele, quando todos os filhos trabalharam como ele - queixas da senhora Maria José de Umblina. Tudo mal injusto! Mas isso também é outra história. Adiante. Ao folhão.

Ora, defronte da nossa casa vivia a família de Alberto dos cabides, de quem já falei tantas vezes. Era num casebre de pedra do meu avô "Soisa" que ficava plantado no alto da colina. Hoje, uma bela moradia da minha estimada prima Gorete. Bastava erguer os olhos e lá estava aquele quadro primitivo à nossa frente. Que paz! E a imagem que eu guardo é de ver Francisco dos cabides, que Deus lhe dê o céu, descalço, com um folhão em cada uma das mãos, cheios de água e a água a lhe saltar do folhão e a fazer "splasch, splasch" no chão da vereda lá em cima. Se é tudo da minha invenção, eu não sei… Depois, era vê-lo arear as panelas de alumínio com palha de aço - a água a trambolhar de um lado para outro. E coisa maravilhosa, enfiar as panelas todas alinhadas numa vara ou numa cana a brilhar ao sol. Também entravam nesta estrafega a cafeteira e os canjirões.

Hoje, já ninguém, pobre ou rico, perde tempo com estas inutilidades. Quem fica com as mãos vermelhas de tanto arear as panelas, como Francisco dos cabides ou como a irmã da professora Deolinda, na Boaventura? Há lá tempo para isso!

E por falar nestas coisas inúteis, está na hora da senhora Aninhas, que Deus lhe dê o céu, começar a despejar os copos do aparador para dentro de uma canastra; está na hora de estender uma toalha debaixo da laranjeira, no chão do terreiro, lambido de tão bem varrido e começar a lavar com água quente, no alguidar de barro, os copitos de licor, de vidro fino de todas as cores, cheios de relevos…

Está na hora, porque daqui a nada, num instante se chega à Festa e lá em cima, Francisco também vai começar numa trambolhada. Talvez mesmo, ele vai tocar folhão, como os bateristas fazem… Tudo a retinir por aí abaixo numa alegria de Festa sem quantia…

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