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Artigo de Opinião

5/01/2026 07:30

Imaginemos um bairro antigo. Não é um bairro perfeito, mas é um bairro organizado. Há regras básicas, um entendimento comum e uma memória coletiva de algo que ninguém quer repetir. Há muitos anos, uma grande briga envolveu quase todos os moradores: casas destruídas, feridos, mortos. No fim, o bairro percebeu que, se cada um resolvesse os seus problemas à força, ninguém ficaria seguro. E assim nasceu um acordo simples e solene: ninguém entra na casa dos outros à força.

Durante décadas, esse pacto funcionou. Houve conflitos, claro. Discussões entre vizinhos, desentendimentos familiares, gente difícil de aturar. Mas evitou-se o pior. O “mal menor” era evidente: suportar alguns comportamentos intoleráveis para evitar uma nova guerra no bairro inteiro.

Mas numa das casas, ao fundo da rua, vive uma realidade diferente. Lá dentro, um homem exerce poder absoluto sobre a sua família. Agride, humilha, controla. Todos sabem. Ouvem-se gritos. Vêem-se marcas. Os filhos crescem com medo e, quando podem, fogem. Os vizinhos comentam entre si, condenam, afastam-se. Alguns chamam a polícia, outros assinam abaixo-assinados. Nada muda.

Porquê? Porque há os amigos do agressor. Jogam cartas juntos, cresceram no mesmo bairro, “ele sempre foi assim, mas no fundo é boa pessoa”. Porque outros relativizam: “Não sabemos o que se passa lá dentro.” Há quem prefira não se chatear, porque amanhã pode precisar de um favor. E há ainda quem tenha interesses: vende-lhe serviços, faz negócios com ele, lucra com a situação, pelo que não quer saber o que se passa lá dentro.

Mas para a maioria é porque o pacto do bairro é claro. Porque entrar naquela casa à força seria quebrar a regra que mantém todos relativamente seguros. “É horrível, mas imagina se isto vira uma confusão geral”. E há o “Hoje é ali, amanhã pode ser na minha casa”.

E assim passam-se anos. Décadas. A violência continua, o agressor prospera, a família desfaz-se. O bairro mantém a sua paz, uma paz estranha, construída sobre o sofrimento contínuo de alguém que todos dizem lamentar.

Um dia, um vizinho mais forte decide agir. Não anuncia que vai entrar na casa de ninguém. Diz apenas que suspeita que dali sai droga para todo o bairro, que essa atividade tem causado sofrimento a várias famílias, que há jovens destruídos, problemas de segurança, medo a crescer. Garante que não pode continuar a permitir que aquela casa seja um foco de crime e instabilidade. Fala em proteger o bairro, em acabar com o tráfico, em restaurar a ordem. Não fala da violência doméstica, o que seria incómodo e dividiria opiniões. O discurso é outro: técnico, preventivo, quase moral. É verdade que também tem interesses próprios: aquela casa sempre lhe foi inconveniente, o morador nunca lhe inspirou confiança e a intervenção dá-lhe poder e influência no equilíbrio do bairro. Mas isso, assegura, é apenas uma consequência inevitável de fazer o que tem de ser feito.

A intervenção acontece. À força. E o bairro entra em choque.

Legalmente, a regra foi quebrada. O pacto foi violado. Entrar à força na casa de alguém não era permitido e todos sabiam disso. Mas, moralmente, a pergunta divide os moradores: é condenável acabar com uma agressão que durou décadas? É condenável impedir que alguém continue a destruir vidas, apenas porque a regra diz para esperar?

Uns dizem: “Isto é perigosíssimo. Se aceitarmos isto, qualquer um entra na casa de qualquer outro.” Outros respondem: “Perigoso foi termos sabido durante anos e não termos feito nada.”

E alguém, finalmente, formula a pergunta que ninguém consegue responder com conforto: até quando é aceitável que alguém continue a sofrer para que os outros se sintam seguros?

Hoje, o bairro já não é o mesmo de há cinquenta anos. As pessoas sabem reconhecer abuso, violência prolongada, crueldade. Já não podem fingir ignorância. Já não podem dizer que “não é claro”. A tolerância à impunidade diminuiu. A paciência esgotou-se.

O dilema é este e não tem respostas simples.

Se aceitarmos que qualquer vizinho pode intervir quando acha justo, o bairro transforma-se numa selva. Se nunca intervirmos, transformamos a regra num álibi para a violência permanente. Entre estes extremos, talvez o verdadeiro erro tenha sido outro: ter passado décadas sem criar uma forma clara, coletiva e legítima de agir. Uma forma que não dependa do vizinho mais forte, nem do mais hipócrita, nem do mais interessado. Uma forma excecional, controlada, assumida como último recurso e não como justiça privada disfarçada de virtude.

Porque há uma coisa que já devia ser evidente: um bairro onde ninguém intervém acaba cúmplice; um bairro onde cada um intervém como quer acaba em guerra. Quando as regras deixam de responder à realidade, as pessoas deixam de as respeitar. E quando isso acontece, não entra a justiça pela porta, entra a força pelo empurrão. Quando a proteção das regras exige o sacrifício permanente de alguém, não estamos a preservar a ordem, estamos apenas a adiar o confronto.

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