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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

1/03/2024 08:00

Aqui há dias, fui à Livraria Esperança à procura de um livro – O Vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan – mas a senhora que me atendeu disse que não o tinham e eu baixei os braços e fui-me embora desconsolado. O livro está esgotado, em todo o lado. Menos na internet, claro. Mas por aí não vou.

Mais ou menos uma semana depois, ao atravessar a Praça do Município numa manhã de fevereiro cheia de sol, O Vampiro de Curitiba veio-me de repente à memória, como se fosse a sua primeira vez dentro de mim, ou melhor, veio-me à memória com a força irrepetível da primeira vez das coisas em mim, como a primeira desilusão, o primeiro amor, a primeira morte.

Guinei à esquerda, subi a Rua dos Ferreiros.

– Qual é o título do livro e o nome do autor? – Perguntou a senhora, a mesma da outra vez.

Eu expliquei ao que vinha e até soletrei o nome do escritor, ao que ela fez cara de espanto e, sem sequer tocar no computador, disse:

– Não temos.

Depois, acrescentou:

– Você esteve aqui na semana passada à procura desse livro.

E rematou:

– Não se lembra?

Sabem, há muito que noto a aproximação da velhice, talvez com mais intensidade a partir dos 50 anos, mas agora que me abeiro dos 60 vou sentindo a sua presença com mais nitidez, a começar nos pequenos esquecimentos, como, por exemplo, O Vampiro de Curitiba, mas também na relação com o meio, as pessoas, os acontecimentos.

O que antes me parecia insignificante, agora atormenta-me ou maça-me tremendamente. E vice-versa. Perdi vergonhas e vaidades, ganhei manias e pancadas. Amo cada vez mais a simplicidade no ser e no parecer, em tudo.

Além disso decidi não comprar roupa nova até ao fim do ano, não por falta de dinheiro, como nos tempos em que vivia em Moçambique, mas porque me apetece dar uso à que tenho até ao fim de cada peça. Por outro lado, tomei a iniciativa de cortar o cabelo sozinho, sem ajuda de ninguém, porque isso me incute uma inestimável sensação de destreza e jovialidade, por oposição à profunda derrota que o peso dos anos me impõe – o corpo sempre moído, cansado, a vista turva, encegueirada, a mente difusa, saturada – vincando-me no espírito o temor duma doença grave, o temor duma desgraça inesperada, o temor do fim iminente.

Acontece também que sou cada vez mais aselha a conduzir e, como todos os velhos, gosto de andar devagar, mas de repente dou comigo a grande velocidade na estrada e depois, à noite, estendido na cama, fico a pensar que talvez podia ter morrido nesse dia, podia até ter matado alguém. Felizmente os meus sonhos são na maioria bons, um passeio no paraíso perdido do meu passado, de modo que acordo sempre capaz de enfrentar o dia, caminhando sem descarrilar entre os patifes e os cretinos que o povoam, caminhando também sem esperança entre os anjos e os santos que o protegem, a pensar que daqui para a frente só uma guerra nuclear ou uma invasão extraterrestre me fará sentir imortal outra vez.

No vazio da hora que me consome, volta e meia apetece-me pôr a mochila às costas e desaparecer novamente em África, mais não seja para adelgaçar o corpo e avivar a alma, sendo esta, para mim, uma atitude equivalente a conduzir um Porsche descapotável como fazem os velhos com pinta, só para fintar a idade e chamar a atenção das miúdas. Porém, acabo sempre a pensar que nunca soube se o tempo que passa me enriquece ou enlouquece.

Em parte, é por isso que escrevo, meus amigos, para tentar serenar a existência e perceber se cresço em loucura ou em sabedoria face ao tempo e à exposição do meu ser, coisa que – digo-vos – me provoca um desgaste emocional do caraças. Mas isto também já pouco me rala. Quero lá saber. No fundo, é apenas literatura. Como O Vampiro de Curitiba. Só que mais fraca, mais pobre...

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