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Artigo de Opinião

Médico-Dentista

30/07/2023 05:55

Também eu comecei há alguns anos com um movimento popular. Ao contrário do ainda senhor Presidente da Câmara de Santa Cruz, no meu caso, o movimento era na horizontal. Movimento para cá, movimento para lá e a coisa foi ficando séria. Se, no início, formar um partido também não fazia parte dos meus planos, em menos de nada, fundava o JPP - Juntos Pelos Pequenos.

Daí para cá também ajudei a reduzir listas de espera de pequenas cirurgias. Retoque aqui. Retoque ali. Tudo menos cataratas. Vai que a minha mulher começava a ver melhor? Prefiro-a assim. Adoro quando me diz que sou lindo. Coitada.

Mas o meu programa não se ficou por aí. Paguei manuais escolares a estudantes. Da pré ao secundário. Paguei fardas. Calçado e passes. Até alimentação eu dei. Porém, mesmo assim, comecei a achar que nunca estavam satisfeitos. No fundo, só estavam bem a fazer de oposição. Sentia que a alegria deles era maior quando eu não estava por perto.

Tudo bem. Há líderes que cansam. Há fases menos boas. Consciente de ter dado o meu melhor, respeitei o espaço deles e fui almoçar fora. Era sexta feira. Enquanto esperava por mesa, pensava no que podia fazer para voltar a ganhar a confiança da minha comissão política. Eis que, do nada, sinto cair-me qualquer coisa na cabeça. Naquela fração de segundo que separa o estímulo sensorial da confirmação visual, eu rezei para que não fosse o que eu estava a pensar. Mas era! Acertou-me em cheio e com vontade. Deixou-me uma madeixa tricolor na franjinha. Na base era esbranquiçada, a meio verde e na ponta marrom. Se me perguntarem se eu acho que me ficava mal, não acho. Já usei tons piores. Mas e os meus amigos? Teriam estômago para almoçar comigo assim? Não creio. Não creio até porque um deles convidou-me logo a ir à casa de banho. E eu fui. Despido de peneiras entrei no restaurante. Por sorte, os lavabos ficavam no outro extremo. Não hesitei e fiz o trajecto de cabeça erguida. Sim, porque se a baixasse ainda seria pior… Para além de expor a "pintura", corria o risco que esta me escorresse pela testa. Chegado ao espelho, e enquanto me limpava, pensei para mim: "vá Pedro, não foi assim tão mau. Pensa que há sempre quem esteja pior. Cagaram-te na cabeça? Cagaram, é verdade. Porém, por sorte, no teu caso foi uma pomba. Já o Filipe Sousa não se pode gabar do mesmo. Ele foi por humanos". Uns dizem que foi pelo próprio irmão. Outros pelo irmão, sim, mas do padre Anastácio. Eu não sei. Não faço ideia. Por alguém foi… Mas o importante agora não é descobrir de que orifício saiu, mas sim limpar e seguir em frente. Até porque atitudes destas dizem muito mais de quem esguicha do que de quem é conspurcado. Portanto, siga. A vida não pára!

Não pára mesmo e prova disso foi que eu, nesse mesmo dia, ainda fui ver se encontrava uns iogurtes que os miúdos me tinham pedido. Servido, coloquei-me na fila para pagar. Eram 2 caixas abertas. O ritmo não era o melhor, eu sei, mas era o que era. A coisa foi andando até chegar a minha vez. Assim que depositei os malditos iogurtes no balcão, o fulano que supostamente ir-me-ia atender, começou a mexer em capas. Abria uma, folheava. Fechava. Abria outra. Voltava à primeira. Olhava para a prateleira. Ia de novo às capas. Falava sozinho. Ajudava a colega a atender a cliente dela. E eu? Eu, mesmo ao lado da Sé, não ia praguejar, não era? Respirei fundo. Nisto, quase em cima de mim tinha duas pessoas, com sotaque venezuelano, a comparar preços. "Mira papa. Esto eres lo que mama toma. Allá eres más caro. Mucho más". Não demorei muito até olhar para perceber de que pechincha se tratava. Nada mais, nada menos que ginkgo biloba. No entanto, mesmo que não tivesse olhado, ficaria a saber na mesma. É que, com essas duas pessoas, estava afinal uma terceira. Uma senhora de mais idade. Ainda com um toque latino na língua, mas já bem mais leve. "Isso é muito bueno. É bueno para falhas de memória e assim". Se dúvidas tinha se a senhora sabia do que estava a falar, rendi-me quando ela disse que "essa árvore foi la única que resistiu às explosões atómicas no Japão". Quer quisesse ou não, estava ali uma entendida em história e suplementação natural. "Este também é buenísimo. Cardo-mariano. Já tomei durante três meses. Pero este é para lo fígado". Estive às duas e às três para perguntar se sabia se fezes de columbídeos combatiam a queda de cabelo. Porém, uma outra senhora da fila antecipou-se e interpelou-a. "O que é que disse que era mesmo bom para a cabeça? Acho que vou levar. Ando muito esquecida". Nota-se. A "consulta" ainda não tinha sido há 5 minutos e ela já não fazia ideia de qual era o "remédio".

Enfim… Já desesperado foi então que, de forma educada, perguntei: "Desculpe incomodar, mas será que me poderia atender?" Simpático, reconheceu o erro e aviou-me. Bem, aviou-me, como quem diz. Chiça. Depois disto tudo também era só o que me faltava, não?!

Pedro Nunes escreve ao domingo, todas as semanas

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