A minha mão atravessa agora o primeiro nevoeiro da noite. Há espinhos fugazes no dorso da escuridão, uma espécie de bálsamo perfurando o calor de Deus, como se fosse ainda demasiado cedo para o seu esplendor.
A minha mão não hesita, porém, contra a mancha dessa noite, contra o silêncio da minha voz e o embate de flores desconhecidas. Não há promessa que o desfaça, ainda que seja tarde e o fogo prolongue a melancolia. Há, ainda, a carne sob a luz escura, a escolha paciente da mulher que arde dentro da inocência que a abandona. Um mês depois do outro, o sangue estéril. Uma estrela fria guia o seu corpo pelos campos extintos e uma ferida inaugural pernoita no seu ventre pela última vez, pelo último tempo. Há um cântico que se aproxima afastando as sombras, aniquilando o ar da noite, abrindo a pele até à água.
Alguém se senta em silêncio por cima da alegria, alguém ama para sempre um corpo que se esqueceu, a inclinação primeira então pronunciada no fio de um vapor.
A mulher fecha os olhos para que todas as imagens se lhe revelem por fim, mas o mar é maior e a sua grandeza levanta todo o sal da terra. E a mulher chora compulsivamente até afundar as palavras, até interromper os finos ramos das intocadas árvores dolosas.
A minha mão atravessa a noite enquanto pedras estremecem e o céu toca a minha cabeça, como uma indulgência breve que se espalha rapidamente até ao fim. A mulher há-de perder a fé e amar Deus; e há-de levar a mão à ferida indizível, e desarmar a palavra da sua força. Da sua boca soltar-se-á, então, o silêncio profundíssimo de um mar que há-de desmanchar de novo a rocha.