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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

10/04/2022 08:00

- Tenho pena dos pequenos da tia Maria A. Tão meninos finos, tão asseados, tão bem festlados e tiveram de fugir para a Venezuela por causa da guerra do ultramar!

Havia sempre quem respondesse a fazer pouco "grandes patriotas!" Mas essa alma de Deus, coitada, que respondia assim não sabia nada do coração de uma mãe de rapazes, capaz de meter um filho num vapor, o Santa Maria, para lhe salvar a vida. Em tempo de guerra, a Nação cega os olhos e tranca o coração e não quer saber nem do medo nem da dor de uma mãe, muito menos enxerga os olhos assustados do soldado que arrasta, sem destino, as botas pelo cais, na hora da partida. Sabe-se lá o que uma Nação quer da guerra e para a guerra! Mas do coração de uma mãe basta ser mãe para se saber tudo! O que se importa uma mãe com a Nação, quando entre ela e a Nação há um filho que tem de partir para matar outros filhos inocentes lá longe numa terra de que não se sabe a cor nem o cheiro e que quer ser livre e igual às outras Nações? Filosofias dos grandes! Aprendera eu em criança, como emigrante, que a Nação era uma coisa tão séria que dava vontade de chorar! Sim, soube isso, quando vi meu pai comovido a chorar ao avistar a nossa bandeira de Portugal, tão longe da nossa terra, hasteada ao lado de tantas outras bandeiras. E era a mais bonita, a nossa!

De modo que, na década de 60 do século passado, minha tia, copiando o coração de outras tantas mães, mandou os filhos adolescentes para a Venezuela. Um de cada vez, não fosse a Nação lhe perceber as manhas!

Soltos como cabritos, estas crianças, feitas homens à pressa, saciaram-se da vida sozinhos, sem regras, num país só quentura, terra areosa e leve, cerveja e mulheres bonitas! Nada de compromissos! Um dia de cada vez! E o orgulho maior, nenhum deles era mau diabo! Mas um dia, num repente, ficaram velhos! E um dia, a Venezuela deixou de ser aquele país todo bom! E quiseram voltar! Uma colecta entre a família, depositada na conta de um amigo de um amigo foi a porta possível para o retorno! Tudo esquisito e estrambólico! A verdade é que nessas reuniões de família à porta fechada, engendrando caminhos e becos com saída para os tirar de lá, os mais velhos de cá iam recontando histórias desses primos embarcados, fugidos à guerra! Disseram-se os gostos, as alegrias e os medos! Contaram-se as partidas pregadas ao avô e às tias! Historiaram-se as horas sombrias e as horas de luz! Pelo telefone, conheci-lhes a voz e as gargalhadas. O choro, não, porque o choro é estar muito nu. Isso não! E da tia Elvira, que me fazia a vida negra, o primo velho, que a conhecera jovem e bela, disse à espanhol do outro lado da linha: "Si, la tia Elvira és reles, pero com um grande córazon!" Pois está claro!

No dia da chegada, março de 2007, só viria um dos primos, porque o outro precisava de mais tempo para se despedir daquela terra quente.

À saída de lá de dentro dos úteros do aeroporto, só podia ser aquele! Um homem alto, bonito, bem-posto, cabelos fartos às ondas e bigode grisalhos! Um ar de galã vivido! Os olhos negros, amendoados, muito expressivos a sorrir! Um modo de desenrascado ao natural! À luz clara, era uma réplica do nosso tio comum, o tio José, que Deus lhe dê o céu! Trazia também parecenças com os primos mais velhos! As mãos e os braços compridos, herança de família!

Para ele, nós, as primas, éramos iguais às tias jovens que ele conhecera 50 anos antes: os nossos gestos, os nossos sorrisos, as nossas falas! Tal e qual, dizia ele sem parar de rir, feliz como uma criança inocente, reencontrada no cais!

E que fantástico abraço é o abraço da família, abraço tecido com a força do sangue e das histórias!

Pena é o que a guerra destrói!

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