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Artigo de Opinião

1/01/2024 08:00

O meu percurso foi acompanhado por mulheres, fui inspirada por mulheres, trabalhei em equipas maioritariamente de mulheres e ao contrário da imagem que muitas vezes se tenta passar, adorei trabalhar com cada uma delas. As mulheres são de uma coragem imbatível, de uma sabedoria serena, de um coração gigante e uma empatia extrema.

Sem querer estigmatizar mulheres até porque não somos de modo algum, todas iguais, gostaria nesta mudança para um novo ano, enaltecer o percurso e história das mulheres, sobretudo, as do sítio que me viu crescer, a Madeira.

Gostaria de dedicar sobretudo às mulheres da serra, que me ensinaram tanto sobre a vida, mas também as da cidade, ainda que muitas vezes à margem do meio urbano. Às que sobrevivem o dia-a-dia, sem apoio familiar, inseridas num sistema social que muitas vezes lhes falha, onde não há colo abrigo, nem chá noturno nem comida que aqueça o coração.

Começo pelas da serra, mulheres que acordam de madrugada para preparar o pequeno-almoço, que calçam as botas de água, bebem o seu shot de aguardente e que seguem caminho pela terra, para cuidar dos animais e dos terrenos. Regressam ainda a meio da manhã para arrumar a casa, fazer o almoço para a família, tratam à tarde da roupa e param um bocado para colocar a conversa em dia com as vizinhas. Mulheres que descansam só á noitinha, depois de terem cuidado de toda a gente. Mulheres que escondem as suas dores, que têm vidas muitas vezes solitárias, com passados tenebrosos, mas que nunca perdem o sorriso, a hospitalidade e a palavra de conforto a quem se aproximar. Sempre prontas a servir e com um orgulho gigante das suas casas e da sua família. Estas mulheres que mantém as tradições do bordado, do bolo da serra, da sopa de castanha, de transportar coisas à cabeça num equilíbrio surpreendente.

E as do meio urbano, negligenciadas por um sistema que não as vê nem as reconhece. Sem casa, sem estudos e sem rumo. À procura de uma oportunidade, muitas vezes perdida, outras vezes dada como presente envenenado. Mulheres que lutam pelas mães e pelas filhas e que se sujeitam a qualquer coisa para lhes dar o mínimo das condições. Mulheres que raramente falamos porque não são de poder. Dificilmente têm voz, quem as olha nem sempre aparentam a melhor figura, não falam a mesma linguagem e a sua estratégia de defesa é o ataque ou fugir. Mulheres com dificuldade em pedir ajuda, mas que carregam no olhar, um grito de socorro.

Vivemos num mundo, em que não são só as mulheres que sofrem, mas são elas ainda o maior número de vítimas, as que estão em maior risco de pobreza, as que não estão representadas em todas as áreas da esfera pública e nas que estão, não são elas as personagens principais. As mulheres tantas vezes apagadas da história, dos feitos incríveis que fizeram, das coisas que descobriram e das várias que desenvolveram. As mulheres que desde o princípio são uma força da natureza, tantas vezes subjugadas a um sistema patriarcal, ainda que a maior percentagem de população seja do sexo feminino.

A estas e às mulheres que continuam a fazer história, ganhando prémios, levando a Madeira além-fronteiras, que com audácia chegam-se à frente e assumem a liderança. Às que com feitos mais pequenos, fazem toda a diferença, as cuidadoras, conselheiras, organizadoras, ouvintes, encorajadoras, a todas elas, cada uma especial à sua maneira.

Que 2024 olhe mais pelas mulheres e que continue a haver o devido reconhecimento pelos seus feitos.

OPINIÃO EM DESTAQUE
Coordenadora do Centro de Estudos de Bioética – Pólo Madeira
11/04/2024 08:00

A finitude da vida é um tema que nos confronta com a essência da nossa existência, levando-nos a refletir sobre o significado e o propósito da nossa passagem...

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