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Artigo de Opinião

Psiquiatra

28/12/2022 08:00

Precisamos destes momentos de separação imaginária, para nos separarmos do sofrimento da nossa vida e continuarmos a sonhar com um futuro melhor. São momentos em que de forma cética podemos dizer que são consumistas, superficiais e sem valor, mas para uma grande parte da população são estes momentos que mantêm a esperança. Alimentar a esperança é fundamental para podermos suportar as dificuldades e lutar por um futuro melhor.

Esta necessidade de separar a nossa vida, faz-nos separar quem somos durante o dia, do que somos de noite. É interessante analisarmos os comportamentos que os grupos têm durante o dia e os que têm durante a noite. Separados por uma barreira luminosa, os comportamentos diversos da noite ficam na noite e os de dia, no dia. Vivemos assim vidas divididas.

Mas tal como a ressaca está lá na manhã seguinte, também os problemas do ano anterior continuam no seguinte. Passámos alguns dos últimos meses a começar a abordar alguns temas difíceis da saúde mental na região, como as adições. Vamos esquecermo-nos delas no novo ano, ou vamos começar a traçar um caminho de mudança? Vamos abraçar a ajuda das várias áreas disciplinares e regiões, ou vamos encontrar soluções curtas, para resolver o problema até às eleições? E o resto da saúde mental? Como vamos capacitar a região para a mudança? Para aumentar a resiliência e a saúde mental?

Anna Lembke, psiquiatra, especialista em adições, deu uma entrevista à Visão que recomendo a leitura e de onde destaco esta frase: "Essa é a base da adição: a busca incessante do prazer leva, paradoxalmente, à incapacidade de o sentir." Socialmente estamos cada vez mais focados no prazer, na felicidade, "porque merecemos". Na verdade, não se trata de merecimentos, nem do dever dos outros de nos mostrarem ou darem esse prazer. Criou-se a cultura que temos direitos e a cada dia que passa esquecemos que temos deveres.

Se há alguma mensagem que gostaria de passar para o próximo ano, é um conceito que já foi descrito por tantos. O caminho do meio. É fundamental vivermos no equilíbrio. Falta de prazer é mau, mas prazer a mais também. O prazer é a droga mais potente da humanidade. O prazer existe na biologia humana para permitir a sobrevivência biológica da espécie, mas tem sido aproveito pelo marketing e pela tecnologia para nos adormecer o cérebro e conduzirem-nos pelo penhasco da destruição certa. É possível termos um futuro se todos estivermos programados pelo prazer? É pelo prazer da conquista que se fazem guerras, é pelo prazer que se destroem casamentos, alianças e tantas outras coisas. Precisamos de equilíbrio para sobreviver e para deixarmos um mundo melhor para quem vier depois de nós. E que mundo será esse se a nossa preocupação é com o nosso prazer? O prazer a mais é tóxico porque o nosso cérebro está programado para fazer apenas o que dá prazer. E se tivermos prazer muito intenso ou todos os dias, deixamos de sentir prazer. Precisamos de estímulos mais intensos, mais arriscados e a vida "normal", passa a ser uma massa cinzenta sem valor. Que 2023 seja um ano em que recuperemos algum equilíbrio dentro e fora de nós e sejamos capazes de sentir o prazer pelas pequenas coisas da vida.

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