O encerramento do ciclo comemorativo do cinquentenário do 25 de Abril coincide com um momento politicamente revelador: a reinterpretação da história recente através de um nivelamento moral entre o Estado Novo e a democracia. Quando se insinuam equivalências simplistas entre a PIDE e o PREC, ou quando se qualifica de “miserável” uma revolução que pôs fim a quarenta e oito anos de ditadura, corrói-se o consenso fundador que sustenta a ordem democrática portuguesa. Não se trata de um equívoco inocente. Mas sim de uma estratégia deliberada, com efeitos na credibilidade das instituições e na perceção que as gerações mais jovens têm do regime que herdaram.
Esta reformulação da memória histórica não é um fenómeno isolado nem exclusivamente português; inscreve-se, pelo contrário, num padrão mais amplo documentado pela investigação comparada sobre erosão democrática. Os regimes raramente colapsam por rutura abrupta — tendem a degradar-se a partir de dentro: a credibilidade institucional enfraquece, os tribunais passam a ser descritos como instrumentos partidários e os meios de comunicação como veículos de propaganda. A leitura seletiva do passado reforça este processo ao moldar perceções no presente, numa dinâmica gradual e muitas vezes difícil de reconhecer em tempo útil.
É neste processo de erosão discursiva que o crescimento da extrema-direita encontra terreno fértil — não como causa, mas como amplificador. Desigualdades reais na saúde, na educação e na habitação alimentam uma crise de representação que os discursos simplificadores exploram com eficácia crescente. A distinção entre diagnóstico e resposta é, contudo, indispensável: reconhecer falhas sistémicas não equivale a legitimar soluções que fragilizam o quadro institucional. A reinterpretação do passado fornece uma narrativa de deslegitimação prévia das instituições, tornando-as vulneráveis à contestação. A lógica do inimigo, característica do populismo radical, aprofunda este processo: quando forças políticas questionam as próprias regras do jogo, o discurso de hoje torna-se o patamar de amanhã.
A eficácia destes discursos apoia-se, em larga medida, numa clivagem geracional. Para quem viveu a ditadura, a liberdade tinha textura, custo e memória; para quem nasceu depois, surge frequentemente como um dado adquirido. Esta diferença de experiência reduz a perceção do risco e enfraquece a disposição para a defesa ativa das instituições. A geração que hoje assume responsabilidades políticas herdou um regime que não conquistou e tem de o defender perante ameaças que os seus predecessores reconheceriam com maior nitidez.
É aqui que as ciências sociais assumem uma responsabilidade que vai além da produção académica. Mais do que arbitrar opiniões, importa garantir rigor analítico, contextualização histórica e recusa sistemática de falsas equivalências. A indiferença face à verdade factual não é constitutiva da democracia — a pluralidade interpretativa é-o. As ciências sociais e humanas não são luxos académicos — são instrumentos insubstituíveis no desenvolvimento da capacidade crítica das sociedades. Sem essa base, a vulnerabilidade à manipulação e à erosão progressiva das liberdades aumenta estruturalmente.
A democracia não se preserva por inércia nem apenas em datas simbólicas. Sustenta-se no quotidiano, na qualidade das instituições e na vigilância ativa de cada geração. As ficções politicamente úteis têm uma propriedade particular: quanto mais se repetem, mais tendem a confundir-se com a realidade. O encerramento das comemorações não assinala um fim, mas uma transição de responsabilidade. Reconhecer isso, com lucidez e sem conforto, é a única forma de não se tornar também parte da ficção.