A Lufthansa garante que não vai desistir da TAP e confirma que entregará uma proposta não vinculativa até quarta-feira, defendendo que é o parceiro com maior capacidade para desenvolver a companhia aérea portuguesa.
“Estamos no processo, temos um forte interesse e tencionamos apresentar uma proposta não vinculativa esta semana”, afirmou o responsável de estratégia do grupo, Tamur Goudarzi Pour, num encontro com jornalistas portugueses na sede do grupo alemão, em Frankfurt.
Sem avançar com mais pormenores, como valores, o gestor justificou a reserva com a fase do processo: “Estamos prestes a apresentar a proposta e não é o momento certo para dar detalhes”.
Apesar de admitir que uma entrada inicial possa ser minoritária, a Lufthansa afasta qualquer cenário de saída do processo, defendendo que a integração pode avançar desde logo: “Muitas das coisas já podem ser feitas com uma participação minoritária, embora outras tenham de esperar”, posição que vai ao encontro do modelo definido pelo Governo português para a privatização, que prevê a venda de até 44,9% do capital, com 5% reservado aos trabalhadores.
Este posicionamento surge numa altura em que persistem dúvidas sobre o interesse de outros potenciais compradores. Depois de notícias avançadas pela Bloomberg darem conta de que a IAG poderia não avançar com uma proposta, fonte oficial da dona da Iberia e da British Airways indicou apenas que, de acordo com o processo, tem até 02 abril para tomar uma decisão.
A Air France-KLM é o outro grupo interessado, tendo já reiterado por várias vezes a intenção de participar na privatização da TAP.
O grupo alemão argumenta que apresenta vantagens face a outros potenciais compradores, destacando a dimensão e capacidade financeira: “Ser o maior grupo de aviação da Europa e o quarto a nível mundial é, por si só, uma vantagem”.
Entre os benefícios apontados estão ganhos de escala em áreas como compras, tecnologia, distribuição e gestão de receitas, bem como maior resiliência em contexto de crise, nomeadamente face à volatilidade dos preços do combustível e a constrangimentos geopolíticos.
A Lufthansa admite ainda investir na modernização da experiência do cliente, incluindo conectividade a bordo com tecnologia da Starlink, empresa com quem fechou acordo para fornecer wi-fi em todos os aviões do grupo. “Vai trazer uma dimensão completamente nova à experiência do cliente”, referiu.
O responsável assegurou que não pretendem reduzir a operação da TAP, mas antes expandi-la, rejeitando a transferência de tráfego para outros ‘hubs’- plataformas de distribuição de passageiros. “Não se trata de desviar tráfego para Frankfurt, mas de fazer crescer os ‘hubs’ existentes”, disse.
O grupo destacou ainda o potencial estratégico de Lisboa e Porto, nomeadamente como pontos de ligação entre Europa, América do Norte, América do Sul e África, considerando que existe “vantagem natural” na localização geográfica.
Nesse contexto, sublinha o peso da TAP no Brasil, onde a companhia portuguesa assegura uma das maiores redes de ligações entre a Europa e aquele mercado, considerado central para o crescimento futuro.
Sobre as limitações operacionais, defende a necessidade de reforçar a capacidade aeroportuária em Lisboa, apontando para a expansão do aeroporto atual no curto prazo, mas sublinhando que a construção de uma nova infraestrutura será inevitável a longo prazo para suportar o crescimento da TAP e do tráfego aéreo em Portugal.
Como exemplo da sua capacidade de integração, a Lufthansa aponta o caso da ITA Airways, tendo adquirido uma participação inicial de 41% em janeiro de 2025 por 325 milhões de euros, com opção de reforçar a posição no futuro.
O presidente executivo da companhia italiana, Jörg Eberhart, considera que a entrada no grupo trouxe ganhos operacionais e financeiros.
“Passa a ser muito mais fácil ter acesso a aviões e a melhores condições com fornecedores”, afirmou, acrescentando que a ITA já registou lucro e espera melhorar resultados.
O gestor, que falava remotamente a partir de Roma, sublinhou ainda que companhias com a dimensão da TAP dificilmente conseguem competir isoladamente, defendendo a integração num grande grupo como condição para garantir competitividade e crescimento a longo prazo.
Sobre o impacto na operação e no emprego, Tamur Goudarzi-Pour indicou que o grupo já reuniu com sindicatos portugueses, sublinhando que o objetivo não passa por”reduzir pessoal, mas por fazer crescer a companhia: “Não se trata de cortar, trata-se de crescer”, afirmou.
As propostas não vinculativas para a privatização da TAP deverão ser submetidas à Parpública até 02 de abril e deverão incluir uma componente financeira, como o preço oferecido pelas ações e mecanismos de valorização futura (‘earn outs’).
Os interessados terão ainda de apresentar planos industriais e estratégicos, sinergias e garantias de preservação do estatuto da TAP como operador aéreo da União Europeia.