A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e o Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic) celebraram hoje a renovação de uma carta ecuménica conjunta, um documento marcado pela defesa dos imigrantes, compromisso com a ecologia e luta contra a polarização política.
A carta “não é apenas um documento de diálogo intereclesial, é, sobretudo, um compromisso público das igrejas com a humanidade concreta do nosso tempo. Num contexto europeu marcado por guerras, fraturas sociais, crises migratórias, desafios ecológicos e rápidas transformações tecnológicas, as igrejas afirmam, de forma conjunta, que a fé cristã não pode permanecer à margem da história”, afirmou hoje o patriarca de Lisboa, Rui Valério, no lançamento do documento em língua portuguesa.
O documento, que foi assinado em novembro entre as Conferências das Igrejas Europeias (que une as principais confissões ortodoxas, protestantes e evangélicas) e o Conselho das Conferências Episcopais da Europa (da Igreja Católica), veio agora “oferecer uma voz cristã unida no espaço público europeu”.
Hoje foi publicado o documento em português numa cerimónia que assinalou os principais representantes das confissões cristãs em Portugal e Rui Valério destacou que o “testemunho comum” das confissões “torna-se credível quando se traduz em atenção aos mais frágeis, na promoção da dignidade de cada pessoa humana, na defesa da paz e na salvaguarda da criação”.
Em vez de uma divisão que “enfraquece” os cristãos, o patriarca de Lisboa referiu que o documento mostra como “as igrejas não falam apenas entre si, falam em nome da dignidade humana”, num “tempo em que prevalecem lógicas de confronto, de exclusão e de indiferença”.
Em contrapartida, “as igrejas propõem uma outra gramática para a vida social e cultural: a gramática da escuta, do diálogo, da responsabilidade partilhada e do cuidado mútuo”, considerou o patriarca de Lisboa.
O continente só “reencontrará a sua alma se colocar no centro a pessoa humana e a sua vocação à comunhão” e “tem de reconhecer de forma irrenunciável as origens cristãs” do próprio continente, acrescentou Rui Valério.
Por seu turno, da parte do Copic, o bispo da Igreja Lusitana (confissão anglicana, do ramo protestante do cristianismo), Jorge Pina Cabral, salientou que a carta, que tem origem num outro documento anterior, “foi revista para atender aos novos desafios e áreas de missão conjunta”.
As igrejas que subscrevem o documento assumem “campos de responsabilidade partilhada e compromisso com a Europa”, num “momento crucial” do continente, em que as hierarquias cristãs “são chamadas a ser sinal de unidade e de esperança, não apenas em palavras, mas em ações concretas”.
A polarização política, o “acolhimento de migrantes e refugiados”, o “trabalho com os jovens” ou o “aprofundamento das relações com as comunidades judaicas e muçulmanas” exigem uma “cultura nova de intervenção por parte dos cristãos”, afirmou o bispo anglicano.
Em particular, Jorge Pina Cabral alertou para a necessidade de “defesa da dignidade humana e proteção dos imigrantes” ou a “promoção da mulher e a defesa das vítimas da violência doméstica”, bem como a “reflorestação das áreas ardidas”, que exigem uma nova consciência ecológica aos cristãos.
“O campo da missão que nos oferece é vasto e desafiante” e o objetivo das igrejas é também “chegar aos agentes políticos e civis do nosso país”, acrescentou ainda.