Inovação: A crise dos semicondutores

Paulo Vasconcelos Freitas (facebook.com/pvf.pt)

Para se entender porque uma indústria de semicondutores, que vale mais de 450 mil milhões de dólares, entrou em crise, podemos começar por um pequeno componente eletrónico de menos um dólar chamado “controlador de vídeo”.

São às centenas os tipos de diferentes chips que a indústria eletrónica tem ao dispor, alguns de fabricantes bem conhecidos como a Qualcomm ou a Intel, com tecnologia de ponta que podem custar entre os 100 e os 1000 dólares cada um, chips que fazem dos computadores poderosas ferramentas de trabalho ou com que o smartphone toque dentro do seu bolso. Em contraste, um chip de um controlador de vídeo é comum: o seu único propósito é transmitir instruções básicas para iluminar o ecrã do seu telefone, de um monitor ou de um painel digital.

O problema para esta indústria - e consequentemente para todas as outras dependentes desta, como é o exemplo da indústria automóvel - é que não há controladores de vídeo suficientes para todos. As empresas que os fabricam não conseguem acompanhar o aumento da demanda, e os valores de mercado estão a inflacionar. O custo de produção de painéis de cristal líquido (LCD) disparou e não há produção suficiente para a quantidade de encomendas aos fabricantes, pois estes são essenciais no fabrico de televisores, smartphones e computadores, mas também de carros, aviões e até de alguns frigoríficos.

Em resumo, tudo o que tenha um ecrã, mesmo que existam todos os outros componentes disponíveis no mercado, sem este chip, serão apenas um amontoado de componentes inoperacionais.

A questão é que não é este o único componente, aparentemente insignificante, que está a escassear no mercado, são uns quantos que começam a faltar, criando um efeito bola de neve na economia global. Gigantes da indústria automóvel, como a Ford, Nissan ou Volkswagen já reduziram a sua capacidade de produção, com perdas de receita significativas para este ano. E é provável que a situação piore, a Samsung já alertou sobre um "sério desequilíbrio" na indústria, enquanto a um dos gigantes de produção de semicondutores de Taiwan informou que não consegue acompanhar a demanda apesar das fábricas estarem a trabalhar na sua capacidade máxima.

Tudo isto se deve inevitavelmente à pandemia que vivemos, todas as previsões apontavam para uma quebra do consumo enquanto o vírus se espalhava pelo mundo, que a quebra da economia seria acentuada. Toda esta indústria trabalha por antecipação e as projeções não eram favoráveis, como tal, a produção foi reduzida.

Durante os confinamentos, as pessoas presas em casa, começaram a comprar tecnologia e mesmo depois, continuaram a comprar, foram novos e melhores computadores, monitores maiores para trabalho remoto, computadores portáteis para os filhos em ensino à distância, televisores 4K, consolas de jogos, máquinas de café, fritadeiras a ar e liquidificadores, tudo o que tornasse a vida em quarentena mais aprazível. A pandemia transformou-se numa gigantesca Black Friday online.

Os fabricantes de automóveis, com as fábricas fechadas durante o confinamento, e os stands sem ninguém a visitar, suspenderam a encomenda de componentes, incluindo os chips que são cada vez mais essenciais para os carros. No final do ano passado, as pessoas queriam sair, mas não queriam usar transportes públicos, e as encomendas de novos carros dispararam de repente. Com a reabertura das fábricas, os pedidos de componentes começaram a chegar, mas os produtores não tiveram capacidade de resposta e toda esta “tempestade” desencadeou-se, até para fabricar os componentes eram necessárias matérias primas, e tudo isso esteve parado, todos julgavam que o regresso iria ser gradual, ninguém previu o que realmente se passou.

O custo dos componentes aumentou de tal forma que muitos dos fabricantes preferem agora aguardar pela normalização dos mercados, a produzir a custos insustentáveis, por isso assistimos agora a tempos e previsões de entregas de novas encomendas com prazos muito superiores ao normal, especialmente de novos produtos.

Percebe agora porque as novas PlayStation 5 estão sempre esgotadas?