A balada da vida triste

A senhora Zulmira de Jesus acordou com a garganta a doer e a filha a gritar. A menina estava convencida de que tinha assassinado uma pessoa durante a noite, mas a mãe disse-lhe que o crime, afinal, ocorrera dentro dum sonho, um sonho mau. Ela sossegou, embora permanecesse muito ofegante, mas depois reparou que tinha as mãos cheias de sangue e não era sangue de sonho, não senhora, era sangue verdadeiro. Pôs-se a gritar outra vez e então a mãe explicou-lhe que se tratava de tinta, a tinta vermelha dos desenhos que tinha feito na noite anterior.

– Não quero ir à escola hoje! – Disse a menina.

– Tens de ir, minha filha – respondeu a mãe.

Desceram juntas no horário das 07:05.

Treze horas depois, a senhora Zulmira de Jesus viu-se forçada a correr na Avenida do Mar para apanhar o das 20:05, de regresso a casa, e foi mesmo à justa, quando o motorista já estava a fazer a manobra para sair da doca.

Ela começou a apertar o passo na Rua Dr. Fernão de Ornelas, ao pé da agência de viagens, e desceu a 31 de Janeiro cada vez mais acelerada até à Praça da Autonomia. Depois, sim, correu de verdade ao longo da avenida, já com a camioneta traçada no olhar, lá ao fundo, ao pé da GNR.

Em passo de corrida, a senhora Zulmira de Jesus apresentava um ar irremediavelmente desajeitado, pesado, balofo, com as mamas flácidas aos saltos dentro da t-shirt, o cabelo grisalho meio desgrenhado, as pernas com celulite a tremer através da saia, pernas demasiado grossas face à estreiteza das ancas e das nádegas, de modo que quem a via em tais esforços era tentado a rir.

Bateu com a palma da mão esquerda na chapa do carro sobre o pneu traseiro e o motorista travou a fundo, pensando que alguém corria perigo. Ela entrou arquejante. Um moço deslavado deu-lhe o lugar, foi uma bênção. Estava morta de cansaço e decurso da viagem pela encosta acima adormeceu três vezes por breves instantes.

A jornada levara-a a percorrer seis edifícios da baixa. Ela e uma colega, que era vinte anos mais nova e vinte quilos mais magra, mas também vinte vezes mais feia e imbecil, limparam inúmeras paredes de vidro e passaram o pano do pó em salas atulhadas de secretárias, por sua vez atulhadas de papéis, varreram pisos carregados de sujidade e outros tão limpos e brilhantes que a intervenção os deixava com pior aspeto.

A certa altura, entraram num gabinete equipado com vários aparelhos bastante modernos e sofisticados, cuja utilidade não perceberam, havendo ali também uma secretária vazia, como se servisse apenas para apoiar os cotovelos, e uma cadeira com um casaco de homem pendurado nas costas. Durante a limpeza, a senhora Zulmira de Jesus acionou inadvertidamente um botão e a sala foi invadida pelo som triste de um violino, um som tão triste, mas tão triste que a fez pensar no sonho da filha e também no marido, que ela dizia a toda a gente que tinha morrido, mas na verdade tinha fugido com outra, desaparecendo para sempre da sua vida.

– Isto não tem graça nenhuma – disse a colega.

A senhora Zulmira de Jesus contrapôs:

– Não tem graça, mas é música.

No fim do dia, quando se dirigia para a paragem, ainda estava a pensar na traição do marido e no sonho da filha e no som do violino, mas, de repente, cruzou-se com duas pessoas e ouviu uma dizer para a outra:

– Liberta a mente.

Esta expressão ganhou em si contornos de horror, pois meteu-lhe na cabeça a ideia de que não é possível libertar uma coisa que já é livre, uma coisa que sempre foi livre e que, por isso mesmo, nos faz sofrer tanto – a mente. E pôs-se a cismar de tal maneira nisto que quase perdia o horário das 20:05.