Deus, a ciência, as provas

O livro em francês “Dieu. La science. Les preuves” tornou-se célebre na França, editado pelo engenheiro M.Y Bolloré, perito em informática e professor na Universidade de Paris Dauphine, e por Olivier Bonanassies, diplomado pelo Instituto Católico de Paris, licenciado em teologia, descrente até à idade de 20 anos, autor de vários livros, artigos, sites na Internet sobre temas ligados à racionalidade da fé. Estes dois autores querem provar a existência de Deus servindo-se da ciência, mostrando que o racionalismo do século XIX e princípios do século XX se tornou uma crença irracional. O livro foi publicado em outubro, beneficiou de uma vasta campanha de promoção e vendeu muitas dezenas de exemplares, não teve teólogos notáveis nem exegetas bíblicas para aprovar ou reprovar os argumentos apresentados.

O astrofísico R. Duqué diz que uma nova tentativa para provar a existência de Deus é um erro tanto científico como religioso. O povo francês ama discussões deste género, convidam à reflexão e ao debate. Pode-se colocar Deus ao nível de um objeto científico?

Certo é que podemos discernir provas de Deus na natureza, na beleza e ordenação do mundo, mas o Deus da Bíblia tem outras formas de se revelar aos homens. O Deus da Bíblia é um Deus que se revela, entra em conversa com os homens, a Abraão, aos Patriarcas, aos profetas, fala ao coração do homem para lhe revelar o projeto que Ele fixou para os homens. No Novo Testamento o próprio Deus faz-se homem, revela a face do Pai celeste. Jesus diz ao apóstolo Filipe: “Quem me vê, vê o Pai. (Jo- 14, 7-14). São Paulo escreve aos cristãos de Corinto: “Nós vemos agora de uma maneira confusa, como por um espelho, obscuramente, mas então nós veremos face a face (1 Cor. 13,12). Os Salmos, que fazem parte da oração da Igreja, servem-se do universo criado para mostrar o poder, a sabedoria e a grandeza de Deus. Os astros na Bíblia, no Antigo Testamento, são chamados o “exército de Deus” (Deus Sabaoth). Numa subida ao “Monte Sinai,” devido à pureza das montanhas e ausência de luzes terrestres, os peregrinos na subida fitando o céu, vem-no tão povoado de estrelas que não encontram lugar para colocar outras! A natureza é sublime, todos podem maravilhar-se da sua ordem minuciosa. O Papa São João Paulo II escreveu na sua obra “Fides et Ratio” (Fé e Razão) que Deus é uma revelação para quem quer contemplar a verdade, e que “a fé e a razão são como duas asas”. A fé alimenta-se de conhecimentos, em particular do conhecimento de Deus. A Encíclica “Lumen Fidei” (Luz da Fé) convida os fiéis a adquirir este conhecimento para afirmar a sua fé. O coração do homem é o lugar da manifestação de Deus na sua dimensão espiritual. Deus manifesta-se na contemplação sublime da criação mas não é a única forma. Há um tipo de fé que brota da alegria e encanto perante o mundo criado que se encontra nos recém-convertidos, como acontece nos Cursilhos de Cristandade, ou noutros momentos preciosos da vida até nas profundezas da dor.  Amadurecer na própria fé implica por vezes aceitar períodos, como acontece nos grandes místicos, em que Deus se mantém afastado ou escondido, como aconteceu com a grande mística Santa Teresa de Calcutá. Temos de aprender a viver com o mistério. A teologia tradicional dizia que bastava à razão humana contemplar a criação do mundo para se convencer da existência de Deus, mas também dizia que a convicção humana acerca da existência de Deus era uma realidade diferente da simples fé.

A Fé é um dom, uma graça infundida por Deus. O grande teólogo São Tomás de Aquino diz que a fé: “é um dom da graça infundido na razão humana, permitindo que a razão transcenda a sua capacidade natural e participe da perfeita cognição, embora de forma limitada pela qual Deus se reconhece a Si próprio”. Segundo os antigos Doutores da Igreja, a fé é um raio de Luz mediante o qual o próprio Deus penetra nos espaços sombrios da vida humana. Também há pessoas para quem a experiência do silêncio e do ocultamento de Deus neste mundo constitui o ponto de partida e um factor básico da própria fé. O que é óbvio e se pode demonstrar não requer a fé.