Irmã Teresa

Ficou vidrada no tom de pele. Parecia de cetim delicado, pálido, mas com toques de carmim nas bochechas como se fosse uma boneca. Os cabelos, escondidos debaixo do véu, davam-lhe um ar ainda mais místico. Mas o que a deixou boquiaberta foi a voz, como se viesse do céu. Nunca tinha ido ao céu, mas era assim que imaginava que os anjos falavam.

Ainda não tinha seis anos, mas toda a ânsia de os completar. Mais do que a chegada do Pai Natal, esperava ter uma mão cheia de anos e mais um para ir para a escola, como se fosse um passaporte para outra vida.

Era penoso ver as primas mais velhas saírem de manhã e ela deixar-se ficar por ali o dia inteiro sem nada para fazer, para além de copiar as vogais que a mãe lhe escrevia num caderninho a ver a calava. 

- Vai brincar, implorava a progenitora, a braços com o bebé que, entretanto, chegara. Tentava distraí-la com contas simples, que completava com um suspiro, exigindo sempre mais, para desespero dos pais, que só queriam que sossegasse.

- Sou a irmã Teresa, diretora desta escola.

E ela que raramente se acanhava, acabrunhou-se, embalada pela voz que parecia o mar calmo a enrolar-se no calhau, num fim de dia de verão. Melódica, tranquila, mas segura e assertiva.

- A menina é esperta, diagnosticou, abrindo a porta a todos os sonhos que começariam em setembro, já com os seis anos completos. Parecia que lhe tinha sido entregue a chave de uma mansão de doces, apesar de ter recebido, com entusiasmo é certo, apenas uma lista de regras: Rezamos todas as manhãs, todos os meninos usam batas da mesma cor, branco e azul aos quadradinhos e o lanche é pão com manteiga, com marmelada uma vez por semana.

Saiu com borboletas na barriga e durante semanas não parou de falar daquela mulher mística, com voz de maresia e promessas de futuro, que podia ser o que quisesse.

Quando chegou ao primeiro dia de aulas e percebeu que lhe tinha calhado a diretora como professora, sabia que lhe saído a sorte grande. A forma como fazia para chegar a todas as pedras do calhau, com suavidade e melodia, valorizando o esforço, premiado com estrelinhas nos cadernos, mas sempre incentivando quem se atrasava na aprendizagem. E com um enorme sentido de justiça, ao serviço dos mais desprotegidos.

Garantiu sempre que poderia chegar onde quisesse e quando se encontravam, anos depois, olhava-a como nessa primeira vez. Via a menina de quase seis anos e os seus sonhos todos. E com a tranquilidade, serenidade e desapego dos que têm a grandeza de tocar os outros de uma forma tão especial, discreta e abnegada, assegurava que as aptidões estavam lá desde aquelas composições sobre a primavera dos verdes anos. Achava estranho que se lembrasse destes textos, mas não contestava e aceitava o orgulho que depositava numa das suas sementes que via a dar frutos. E foram tantas com essa sorte.

Ficou-lhe dessa longínqua primeira classe, entre tantas coisas, a vontade de trabalhar sempre para a estrelinha. E nunca desistir de tentar

(Obrigada. Que descanse em paz, querida Irmã Teresa.)