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Artigo de Opinião

27/04/2024 08:00

Quando todos os nossos antepassados se foram e se chega a uma idade em que já não será possível viver outro tanto, somos atirados para a fria percepção de que estamos na linha da frente da partida. Dá-nos então irresistivelmente para lucubrar sobre tudo o que se viveu e o que restará viver.

Nesta curta estrada inclinada e incerta já não se busca o sentido absoluto das coisas, da vida, posto que não o tem. Basta-nos tão somente aquele que em cada passo lhe vamos dando, ao sabor das pulsões e dos sonhos. A vida, mais do que aquela que se viveu, é a que se recorda e como se recorda para a contar. Somos na verdade memória, memória de uma vida que acontece sobretudo no interior da mente.

Nasce-se e estamos ausentes, até que as primeiras memórias nos acordem a consciência clara de estarmos vivos. Memórias que se vão apagando e substituindo até que, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente se se encontre a si próprio. É deste encontro ou reencontro que a velhice nos impede de escapar, aquela hora única que pode ser a mais feliz ou a mais amarga das horas, o encontro com a nudez de quem se é e a razão fundamental por que se vive. Nessa crua e viva lucidez reside a beleza e a sabedoria de ser velho. Já todos fomos jovens, nem todos serão velhos e ninguém quer ser velho, mas ser velho é a única forma de viver muito. Tudo na natureza vivente tem um começo e um fim e é forçoso encarar cada momento desassombradamente, assumidamente nos seus contornos peculiares de beleza e autenticidade. É inútil procurar agarrar-se aos traços de juventude e frescura que se perderam e aos ressentimentos do que foi ou do que poderia ter sido no caminho dos sonhos que se abraçaram.

A vida segue, segue sempre para lá das mágoas e das cicatrizes. Perde-se o tempo em busca da felicidade, como estado que se cristalize eternamente, quando a felicidade não é mais do que breves momentos que o acaso faz por ditar e que se aconchegam na memória para sempre. Um recanto prazeroso, um gesto nobre, a alegria no olhar de uma criança, a marca que se deixou no coração de alguém ou alguém deixou no nosso, o amparo do colo fraternal e familiar, a intensidade das emoções como uma forma de eternidade. Alimenta-se o orgulho em buscas hedonistas, a fama, a conquista, o poder, glórias efémeras que se desvanecem e deixam um estranho travo a vazio se conquistadas. Neste tempo da grande interrogação, do balanço entre o passado irremediável e o futuro desconhecido vê-se despontar o valor supremo da tranquilidade, a ambição da serenidade de que falava Borges, talvez ela própria uma forma de felicidade. “E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, e que o poente é belo e é bela a noite que fica...”.

Seremos memória na mente dos outros, dos que nos amaram ou guardam no coração aquilo que lhes demos e depois será o eterno vazio, o esquecimento absoluto dos que não se libertaram da lei da morte por obras valerosas. Entanto nada foi em vão.

A vida faz-se no fulgor das ilusões, as ilusões que guiam os impulsos, fazem persistir, renovar a esperança e deixam pressentir vibrantemente que estamos vivos, no lastro das coisas que incessantemente perseguimos. A vida é uma ilusão que morre quando já não há mais nada por que se iludir. Mas no dizer de Eluard: “Il y a toujours un rêve qui veille”, por mais ínfimo que possa ser o bruxulear da sua luz. Até ao último suspiro, resta sempre algo a que se agarrar. A vida é feita de sonhos e das memórias do seu caminho. E por mais descabido ou incompreensível que possa parecer ao olhar frio, distante ou vesgo de alguém, há sempre beleza no sonho.

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