Não é da tua conta

Fiquei triste por ouvir reportar, há quase duas semanas, que um jovem foi espancado até à morte à saída de uma discoteca, por ser homossexual. Se este veredicto quanto às intenções é absolutamente verdadeiro ou abusivamente precipitado, não interessa para a discussão que aqui trago. Interessa-me mais a consternação que senti ao equacionar que se exerça tanta violência sobre alguém, sem motivos reais nem racionais para o fazer. Por quem aquele jovem sente atracção física, ou com quem pratica relações sexuais consensuais na intimidade, não é da conta de ninguém além do próprio. É assunto da sua consciência. Que haja quem, por lhe ser próximo, se sinta autorizado a discutir a sua vida amorosa e sexual, continua a pertencer ao próprio a concessão dessa autoridade.

Bem sei que há quem, por razões religiosas, considere que ele pertence à divindade e que essa divindade não o autoriza a tal. Acontece que a maioria das religiões concede ao indivíduo a possibilidade de pecar. Se é o indivíduo quem tem de escolher ser virtuoso, então também pode escolher não o ser — aos olhos dos preceitos da religião em causa. Arriscar-se-á a sofrer castigos imensos depois da morte, porventura, mas essa escolha será sempre dele, não dos julgadores terrenos. Não terá lógica, certamente, que aqueles que se advogam vigilantes da virtude alheia, decerto eles próprios absolutamente isentos de pecado, privem a divindade do seu julgamento final. Parece-me ainda menos lógico que juntem a este pecado o de atentar contra a vida que, afinal e segundo os próprios, pertence à divindade.

Não conheço, por dentro, nenhuma religião a não ser o catolicismo, já que foi nele que fui criado. Se bem me lembro da catequese e do que me ensinaram pais, avós e tios, é virtuoso aos olhos de Deus praticar coisas como a tolerância, o perdão, a misericórdia e, mais importante, o amor pelo próximo. Não me parece que tratar mal alguém apenas porque é pecador se coadune com qualquer daqueles preceitos — até porque todos pecamos.

Também me lembro, da catequese, que Jesus Cristo terá dito “que atire a primeira pedra quem nunca pecou”. Eu sempre interpretei, desde que me lembro de pensar nisso filosófica e racionalmente, esta passagem como um “cada um sabe de si”.

Claro que é natural que haja pressão social num ou noutro sentido, que uma sociedade se constrói em volta de valores comuns entre os que a compõem, mas tem de haver espaço para o indivíduo ser um indivíduo. Cada um de nós submeter-se-á à pressão social, essa coisa tão mal-afamada quanto necessária para estabelecer regras de convivência, na medida em que se sentir mais confortável. Quanto mais alguém se afastar, menos deve esperar ser aceite. Existem tantos pontos de equilíbrio neste constante confronto entre os egos público e privado, quanto existem indivíduos. O ego público estabelece contactos, negoceia relações e ajusta-se ao mundo social. O ego privado é... privado.

Não gostar de um determinado comportamento pode ser, naturalmente, razão para excluir o outro das suas relações pessoais. Eu não sou obrigado a conviver com alguém por quem nutro antipatia, seja por não lavar os dentes, seja porque gosta de ananás na pizza, ou até mesmo porque usa os boxers a sair por fora das calças. Mas antipatizar, seja por que razão for (disparatada ou perfeitamente justificável), não é razão para aplicar qualquer tipo de violência ao outro.

Se não gostas do que faz o teu vizinho na sua vida privada, lembra-te de que não é da tua conta.