Transformemos o mundo, com ousadia!

O escritor Arturo Pérez–Reverte diz-nos que um “homem bom” é alguém que “consegue viver com dignidade e lealdade”. E Amin Maalouf acrescenta que o “homem bom”, para além de viver com dignidade e lealdade, tudo deve fazer para tentar “mudar o mundo”, com plena lucidez, não mentindo, nem a nós, nem aos outros, reorientando, encontrando uma solução, um caminho viável, para a resolução dos problemas.

Neste mundo, extraordinariamente diferente, nesta manhã de Páscoa, em que continuamos a acreditar que as várias formas da maldade (designadamente, o egoísmo, a mentira, a traição) não tomam a última palavra, urge perceber que é hora de, então, tudo fazer para minorar o sofrimento do outro, principalmente dos mais indefesos e construir uma sociedade em que reina a lealdade, a dedicação, o amor pelo bem comum!

Quando nas ruas do Funchal passo por um sem – abrigo, cumprimento-o e penso… “tivesse esta pessoa o adequado acompanhamento, no momento da sua primeira crise, e poderia não estar aqui…, poderia ser advogado, engenheiro ou um trabalhador de uma qualquer empresa…”, sinto-me responsável por ele, bem como por todos aqueles que estão a sofrer neste contexto de pandemia (empresários, trabalhadores, jovens, famílias, vítimas de violência doméstica) e tudo devemos fazer para que as pessoas não se tornem transparentes, não se tornem um simples número, um processo, um papel, uma imagem longínqua de sofrimento que me entristece, mas que não me impulsiona a agir!

Olho para o mundo e carrego no meu coração aquelas trinta crianças que foram raptadas em Palma, sede do distrito da Província de Cabo Delgado, em Moçambique, que juntamente com raparigas e mulheres continuam nas mãos dos insurgentes. Neste pedaço de terra, de um país que tem por língua oficial o português, e que é palco do maior projeto de gás natural em África, têm acontecido tremendas atrocidades, decapitações, milhares de mortes, cerca de setecentos deslocados… e o que tem sido feito para evitar esta catástrofe? Muito pouco! E o respeito pela soberania de um país, bem como o envio de sessenta militares portugueses para a formação das forças especiais moçambicanas, não são respostas suficientes para evitar a perda de mais vidas, da violação, constante, dos direitos humanos. Portugal, a União Europeia, a Comunidade Internacional podem e devem fazer “mais”…, é o tal olhar para a realidade com lucidez que nos deve encorajar a encontrar soluções que a gravidade da situação que ali se vive exige …, a minha, a nossa vida, vale tanto como a daquela menina moçambicana que foi decapitada sob o olhar destroçado dos pais!

Em Myanmar os soldados entram nas casas, levam os rapazes e quantas vezes matam a tiro as crianças! No Haiti persiste a crise humanitária e cerca de quarenta por cento dos seus cidadãos necessitarão, neste ano, de assistência!

No mundo existem, ainda, muitas guerras, pessoas privadas de alimento, dos cuidados de saúde, da educação, da adequada proteção. Contudo, no ano de 2019, 2.153 bilionários tinham mais riqueza do que sessenta por cento da população… tudo é tão, avassaladoramente, triste!

Que os decisores políticos alcancem que não poderão recostar a cabeça, enquanto existir gente que sofre e que deposita neles a sua Esperança…, somos responsáveis uns pelos outros e acontece Páscoa sempre que nos tornamos Vida para o próximo, sempre que, com ousadia, transformamos o mundo, transformando-nos! Que assim seja!