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Artigo de Opinião

Investigadora

16/06/2024 08:00

Por estes dias, e apesar do capacete que não nos larga e faz adivinhar um S. João molhado, já se sente o espírito da Festa. Escrevo assim com letra maiúscula porque é grande a emoção que se vive, já que nestas bandas, o santo que inaugura o solstício de verão funciona como um marco, com o qual se mede o ano (tal como acontece com o Natal na Madeira).

- a este já chegamos!

Ou

- este já ninguém me tira!

É o que se ouve de boca em boca, antevendo-se uma celebração com muita animação e tradição. E por falar nestas coisas, estou já a preparar-me para tirar as sortes. Desta vez (claro que não sou novata), vou tentar a minha chance com um caracol. Calma. Já explico. A ideia é pegar num pano preto, colocar o molusco e tapá-lo com uma panela ou uma taça. O bichinho ficará a trabalhar a noite inteira, de 23 para 24 de Junho e, nesse dia de manhã, terá escrito com o seu muco, a inicial do pretendente. Eh Voilá! Assim ficarei a saber quem o futuro me reserva. Mas há mais. Diz o povo sabedor que as águas de S. João são lampas (bentas). Faço tensão de dar um mergulho depois da meia-noite e benzer este corpinho dos pés à cabeça. Porém, recuso-me a ir ver a sombra. Esta coisa sempre me assustou. Penso que compreendem. Uma coisa é achar um noivo e sonhar com “e viveram felizes para sempre”, outra é não achar a sombra e supor que o fim (que nos persegue, é verdade) tem data marcada. Pretendo empanturrar-me de capelas – a iguaria típica da época - feitas pela Sara no forno a lenha e provar as cavalas com molho de vilão que me foram prometidas pelo menino Brito.

O programa oficial foi apresentado no dia 31 de Maio e oferece propostas para todos os tamanhos, gostos e feitios. As festas iniciam-se a 14 de junho e terminam no dia 24, feriado do concelho por decisão oficial de tempos mais recuados, quando a primeira fonte a ser decorada era precisamente a fonte de S. João. António José Rodrigues explica que, na véspera de S. João, era costume enfeitar-se os carros de bois com cana vieira e flores e que as gentes passavam a noite a cantar e a dançar lá nas bandas da Capela da Graça, sendo também costume saltar à fogueira. Na verdade, antigamente, e ao cair da noite, viam-se várias fogueiras aqui e acolá e o fogo estalava com vigor. Agora, e devido às regras civilizacionais, haverá uma única fogueira à entrada do cais. Já ninguém salta. Já ninguém queima os pêlos das pernas e muito menos os cabelos.

O ponto alto é o desfile das marchas dos quatro grupos: Vila, Camacha, Campo de Cima e Campo de Baixo que apresentam, cada um, um tema livre, mas evocativo das vivências locais. Os voluntários, depois do horário laboral, trabalham dias a fio criando vestidos, arcos e carros alegóricos que animarão a noite sanjoanina. Tenho testemunhado o empenho e o sentido de responsabilidade de cada marcha, cujo objectivo é perpetuar um legado genuíno que, apesar de ser já um cartaz turístico, é, acima de tudo, um momento em que a comunidade ostenta com orgulho a sua herança e a sua essência. Fica aqui a minha homenagem a este grupo de porto-santenses, cada um representando o seu sítio e emprestando às Festas de S. João um valor acrescido enquanto guardiães da tradição e do viver da primeira ilha do Infante.

Misturando o profano com o religioso, numa simbiose que retrata a identidade duma comunidade que venera o filho de Zacarias e Isabel com grande entusiasmo e devoção, a Vila Baleira celebra, uma vez mais, o S. João. Diz o ditado que, no dia de S. João, tudo cresce até ao chão. Assim espero. Sobretudo, que cresça a nossa capacidade de nos espantarmos connosco e com os outros. E viva o S. João!

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