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Artigo de Opinião

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10/02/2024 08:00

“Vi grandes nações, outrora líderes de civilização, transviadas por pregadores do disparate altissonante. Vi a crueldade, a perseguição e a superstição ganharem terreno, gradualmente, até quase chegarmos ao ponto em que, por elogiar a racionalidade, uma pessoa é tida por antiquada, como se, para seu infortúnio, tivesse sobrevivido a uma era obsoleta.” (Russell, B., Um esboço do lixo intelectual, 1943).

É preciso muito cuidado com as opiniões que suscitam orgulho, já defendia B. Russell. Cada um de nós, convicto, poderá dizer que tem mais razão, seja em relação ao nosso país, ao nosso dia-a-dia ou a outro tema qualquer. Balizamos os nossos valores de modo a garantir que os nossos méritos são os que realmente importam (ao passo que os nossos erros são comparativamente triviais), para podermos criticar, julgar e condenar o próximo sempre que assim nos apeteça, sem nos sentirmos culpados por isso.

Num momento em que a suspeita sobre a classe política grassa nas conversas de café (confundindo-se a árvore com a floresta), esperar-se-ia que fôssemos capazes de, racionalmente, admitirmos que não podemos assumir que todos os políticos são corruptos. Até que sejam efetivamente condenados pela justiça, não podemos condenar na praça pública todos os que são, hoje, suspeitos ou arguidos. Mais importante ainda, não podemos limitar-nos a condenar todos (!), indiscriminadamente.

O tempo da justiça é mais lento do que a nossa ânsia pela verdade, daí ser imperativo que sejamos cautelosos nas condenações imediatas. Sabendo que é ética e moralmente reprovável a suspeita da prática de crime na gestão da coisa pública devemos, ainda assim, respeitar o tempo das instituições e o princípio da presunção da inocência. É igualmente reprovável que os partidos que deveriam transmitir seriedade, responsabilidade e tranquilidade à população, tenham sido os primeiros a reagir, intempestivamente – as últimas duas semanas foram marcadas por uma espécie de repentismo político dos partidos com assento parlamentar (salvo honrosas exceções). Este é o tempo da ponderação, da cautela, do racionalismo, não do repentismo político.

Que os partidos da oposição se tenham precipitado sobre a possibilidade de irmos a eleições antecipadas, conscientes de que “é agora ou nunca”, é perfeitamente compreensível (ainda que reprovável, pela forma e conteúdo). O que não se compreende é a instabilidade gerada pelos partidos do arco da [atual] governação.

Sem compreender os anseios da população, o PAN precipitou-se em defesa do acordo de incidência parlamentar, com o argumento falacioso de que seria “extremamente perigoso irmos a eleições agora”, esquecido que está dos ideais de abril, que tão bem marcam o espírito português. Com posições reiteradamente incoerentes, exigiu a demissão do Senhor Presidente do Governo Regional, “com efeitos imediatos”, como se bastasse abanar uma batuta e se pudesse mudar a 1ª figura da Região sem mais, nem menos. O CDS também bateu com a porta quando o Senhor Representante da República anunciou aceitar a demissão do Presidente do Governo Regional após a aprovação do Orçamento da Região. E aqui é que a porca torce o rabo.

Já que tão ávidos por prestar declarações, os partidos devem aproveitar o espaço mediático atual para explicar ao povo madeirense como é que esperam restaurar a confiança nas instituições sem que os partidos extremistas saiam vencedores deste jogo de xadrez com mais reis do que peões.

Parece ser mais difícil lidar com o orgulho de cada um dos intervenientes do que discutir o que, in factum, está plasmado na lei. A mensagem não foi, nem é clara. E, em política, quando a mensagem não é clara, perde-se a razão e a confiança do povo. A razão dependerá sempre de quem a defende, mas a confiança é poder.

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