A maior ilusão política das Regiões Autónomas é acreditar que Lisboa algum dia olhará para Madeira e Açores como parte da solução. Na melhor das hipóteses, somos uma nota de rodapé. Na pior, uma despesa que alguns gostariam de reduzir.
O problema não é deste ou daquele Governo. Não é do PS, do PSD ou de qualquer outra sigla que ocupe circunstancialmente os gabinetes ministeriais. O problema é mais profundo. É cultural. É estrutural. É uma forma de olhar para as ilhas que atravessa gerações de governantes, administrações públicas e instituições nacionais.
Muda a cor das paredes. Mantém-se a vista da janela.
Quem vive na Madeira ou nos Açores aprende cedo uma realidade simples: quando dependemos de Lisboa para resolver um problema, o mais prudente é sentarmo-nos confortavelmente. A solução vai demorar. Será estudada. Depois será analisada. Seguir-se-á uma comissão. Talvez um grupo de trabalho. Eventualmente um parecer. E, com alguma sorte, um dia surgirá uma regulamentação. Se não surgir outra prioridade nacional pelo caminho.
O mais curioso é que, quando finalmente chega alguma resposta, aquilo que deveria ser entendido como o cumprimento de uma obrigação do Estado aparece frequentemente embrulhado como um gesto de extraordinária generosidade. Os direitos das ilhas são muitas vezes apresentados como favores. E os favores, como sabemos, exigem gratidão.
A verdade é que não estamos perante um episódio isolado. Estamos perante um padrão que atravessa governos, regimes e séculos. A Madeira conheceu revoltas contra o poder central ainda nos tempos da Capitania. Conheceu conflitos provocados por impostos, monopólios, privilégios concedidos à distância e decisões tomadas sem consideração pelas realidades locais. Ao longo da nossa História, mudaram os reis, mudaram os regimes, mudaram os governantes, mas a origem do conflito foi quase sempre a mesma: um poder distante a decidir por quem vive cá, sem verdadeiramente compreender o que é viver cá. Os séculos passam, mas o problema mantém uma desconfortável capacidade de sobrevivência.
A autonomia resolveu muito. Mas não resolveu tudo.
Basta olhar para dois dos dossiês mais importantes da relação entre a República e as Regiões Autónomas: a revisão da Lei das Finanças Regionais e a revisão dos Estatutos Político-Administrativos. Ambos são regularmente invocados nos discursos oficiais. E ambos parecem condenados a uma eterna sala de espera da República.
A história repete-se tantas vezes que já nem surpreende.
Foi assim com os transportes marítimos. Foi assim com as ligações aéreas. Foi assim com sucessivos compromissos assumidos perante as Regiões Autónomas. Mudam os protagonistas. Mantém-se o padrão.
Nenhum madeirense decidiu nascer a mil quilómetros do continente. Nenhum estudante madeirense escolheu precisar de um avião para frequentar uma universidade. Nenhum doente escolheu que uma consulta diferenciada possa implicar uma viagem aérea. Mas, ainda assim, o debate nacional insiste frequentemente em tratar estas matérias como se estivéssemos perante benefícios especiais e não perante mecanismos mínimos de compensação de uma realidade geográfica permanente.
Há portugueses que defendem a coesão territorial até ao momento em que a coesão territorial custa dinheiro. Nessa altura, a solidariedade nacional transforma-se rapidamente num debate sobre privilégios.
E esta atitude não se limita à política. Basta observar o que acontece no desporto, onde os custos da insularidade são regularmente ignorados por federações que desenham regulamentos como se o território nacional terminasse em Sagres. Basta olhar para a cultura, para programas de financiamento, para concursos públicos, para apoios sociais e para inúmeras decisões tomadas numa lógica continental que apenas mais tarde se recorda de que existem portugueses espalhados pelo Atlântico.
Mais revelador ainda é o discurso que encontramos diariamente nas redes sociais. Sempre que um madeirense ou um açoriano se queixa de uma injustiça evidente, surge imediatamente um coro de indignação. Se falamos dos custos do transporte, somos subsidiodependentes. Se falamos dos custos da insularidade, somos privilegiados. Se exigimos respeito pelos nossos direitos, somos ingratos. Como se viver numa ilha fosse uma espécie de resort permanente financiado pelo contribuinte continental.
E este é o problema. Enquanto uma parte significativa do país continuar a querer os benefícios estratégicos das ilhas sem aceitar os custos de as tratar com justiça, continuará a existir uma convicção difícil de explicar a quem nunca precisou de atravessar um oceano para exercer direitos básicos de cidadania. Porque o que separa as ilhas do continente já não é o mar. É a diferença entre quem vive os problemas e quem apenas os administra à distância. E enquanto essa distância persistir, haverá uma conclusão que continuará a atravessar gerações de madeirenses e açorianos. Estamos sós.