”Quando os maus se organizam, os bons devem associar-se; caso contrário, cairão um a um, vítimas sem compaixão numa luta desprezível.”
Edmund Burke
Há coisas sobre as quais não vale a pena perder muito tempo. Por irrelevância ou vacuidade. É o que costuma acontecer com a esmagadora das coisas ditas por dirigentes do Chega. Todavia, há coisas que não podemos deixar passar.
A tentativa de apresentar o Chega como o “verdadeiro herdeiro” do Personalismo e de Francisco Sá Carneiro é uma intolerável operação de retórica. Mais: é uma fraude. E por isso, não a podemos deixar passar!
Comecemos pelo personalismo. Para Mounier, a dignidade é universal. A pessoa humana, qualquer pessoa humana, não adquire valor por ser portuguesa, francesa ou de qualquer outra nacionalidade. Possui valor antes de qualquer pertença. A dignidade é intrínseca a qualquer pessoa. A todas as pessoas. E neste sentido, opõe-se a qualquer coletivismo (adorados pelo Chega e pela extrema-esquerda, pasme-se!) e a qualquer individualismo capitalista. Porque reconhece a individualidade, é verdade, mas uma individualidade com dignidade e prenhe de valor. Por isso, uma política que apresenta grupos humanos inteiros como ameaça entra em contradição com a ideia central do personalismo.
Aliás, Mounier (que deve dar voltas a túmulo ao ouvir o seu nome ser evocado em vão) denunciou todas as formas de nacionalismos que transformam a comunidade numa realidade fechada sobre si mesma. Para ele, a comunidade autêntica não se constrói pela exclusão do Outro, considerado inferior ou perigoso, mas pelo reconhecimento mútuo entre pessoas livres e responsáveis. O personalismo opõe-se à lógica do bode expiatório porque esta reduz indivíduos concretos a categorias abstratas.
Mais. O personalismo consiste exatamente em reconhecer a dignidade de TODAS as pessoas humanas. Não consiste em defender a comunidade contra o indivíduo, nem o indivíduo contra a comunidade, mas em promover uma sociedade onde cada pessoa se realiza na relação com os outros. Uma política que mobiliza a desconfiança contra grupos inteiros de pessoas por causa da sua origem, cultura, fé ou condição social não concretiza o personalismo: contradiz o seu fundamento. Para Emmanuel Mounier, a pessoa é sempre um fim e nunca um instrumento de combate político. E, assim, quando a semântica política transforma seres humanos em símbolos de ameaça para mobilizar emoções coletivas, abandona o terreno fértil do personalismo para entrar no pântano lamacento da demagogia.
Ora, Sá Carneiro foi profundamente influenciado por este pensamento, assente na tradição humanista cristã e europeia que rejeita todas as formas de coletivismo que anulem a pessoa. E é precisamente aqui que a reivindicação de alguns dirigentes do Chega entra em contradição com o seu pensamento e com a sua história. Uma política que transforma minorias em bodes expiatórios dos problemas nacionais e que explora medos identitários para obter ganhos eleitorais afasta-se do personalismo e de Sá Carneiro. Porque o personalismo exige olhar primeiro para a pessoa concreta, e não para o rótulo que lhe é atribuído. Aliás, foi isso que o histórico líder do PSD fez a toda a sua vida, na esfera pública e na esfera privada.
Existe também uma dimensão profundamente demagógica na argumentação apresentada. O Chega identifica o “sistema” como adversário difuso e atribui-se a si próprio um monopólio da autenticidade política. É uma estratégia clássica do populismo: proclamar-se como a única voz legítima do povo e apresentar todos os restantes atores políticos como traidores. Mas a democracia que Sá Carneiro ajudou a consolidar assenta no contrário: na legitimidade do pluralismo e na concorrência democrática entre projetos diferentes. O discurso que reduz problemas complexos a culpados fáceis não é uma herança sá-carneirista.
É por isso que não podemos permitir esta tentativa de apropriação ilegítima do Personalismo e de Francisco Sá Carneiro. Pela centralidade da pessoa humana, pela liberdade, pelo pluralismo, pela tolerância democrática e pela recusa de qualquer política baseada na divisão artificial da sociedade. Nem Sá Carneiro nem o Personalismo podem ser capturados ou transformados em patronos de discursos que prosperam através da estigmatização do outro. Porque estão ambos em horizontes opostos! Porque são antagónicos. Porque o Personalismo nasceu para combater extremos e Sá-Carneiro foi um dos maiores paladinos nesse combate!