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Artigo de Opinião

Professora Universitária

22/06/2026 08:00

“Brejeira, não sejas trafulha/ Ó bela vem coser o avental!” “Dedal não me apanhas, sou esperta e ladina/ E mais retorcida que as de croché” E era assim a letra da famosa “A Agulha e o Dedal”, cantada por Beatriz Costa. Talvez o governo liderado pelo PSD não tivesse caído tão facilmente na ratoeira do Chega se tivesse aprendido bem que escolher para ter perto de si uma agulha brejeira, trafulha, esperta e ladina, mais retorcida que as de croché, que negociara com ele a aprovação do “pacote laboral”, iria acabar em ponto sem nó. Isto, porque a agulha fugiu ao “didal” quando se assustou com a indignação popular.

Ainda bem, digo eu, já que o “pacote”, como defendido pela CGTP e pela UGT, iria ter graves consequências para os trabalhadores, com o aumento da precariedade, a desregulação dos horários e a facilitação de despedimentos. O impacto social no que tocava à idade da reforma e às alterações nas indemnizações por despedimento, o aumento do horário de trabalho diário, sem remuneração extraordinária e a imposição de trabalho noturno e em feriados, mesmo em grupos vulneráveis, contribuiu para um descontentamento generalizado que levou muitos portugueses à rua. De facto, o “espírito moderno do século XXI” que o governo defendia como base da arquitetura do seu pacote foi entendido pelos trabalhadores como retrocesso dos direitos adquiridos e favorecimento das entidades patronais. O que é certo é que caiu na votação da generalidade, e que esperemos que por lá fique. Ainda que acredite que vá voltar, de diversas formas e feitios.

Mas, que lição pode retirar o PSD da escolha da agulha? O que estava negociado, e aliás assumido de forma pública pelo Chega, no debate de quinta-feira, era a aprovação do “pacote”, um vestidinho à medida das empresas e da pretensa produtividade. No processo, os dirigentes do partido escolhido para negociar perceberam que a sua massa popular era contra o enfraquecimento do trabalho digno que o “vestido” design XXI provocaria. Oportunistas, populistas, coerentes apenas com a sua incoerência e retorcidos como as agulhas de croché, os senhores do Chega retiraram-se no último momento da negociata.

Porquê? Além dos eleitores que perderia, também o seu papel como partido da oposição ficaria em causa, fortalecendo o PS, que sempre foi estável e coerente sobre o lado em que se posicionava. O PSD sabia onde se metia: já antes tinha ficado surpreendido com a forma como o Chega cose e descose. E o PSD sabe que existe um partido da oposição com o qual pode falar, que é um interlocutor credível, que não engana e representa uma força verdadeiramente democrata. Mas, não lhe quer dar espaço.

Esperemos que os partidos do governo não caiam agora na esparrela de concordar com o Chega a revisão constitucional, afastando o PS, abrindo caminho para a privatização, ainda que parcial, da segurança social, ou a destruição bocadinho por bocadinho do SNS. Ou outras diabolices que uma agulha trafulha possa obrigar a coser.

Diga-se a verdade: se há coisa que o Chega cose bem é o que lhe cai limpinho, limpinho, com as curvas todas acentuadas no lugar justo. Por isso, quando o PS-Madeira propôs na ALRAM o início dos trabalhos parlamentares a 10 de setembro em vez de 1 de outubro, aumentando os dias de presença no hemiciclo, aliou-se ao voto contra do PSD-CDS abstendo-se, com a IL, e, por isso, invalidando a proposta que, além do PS, só teve os votos a favor do JPP. Então, agora, os deputados eram tipo miúdos da escola que voltam aos bancos no início de setembro? E os seus compromissos pessoais e profissionais? Como é que era? Afinal, o problema não são os dias de trabalho, mas a sua estruturação... o povo já tinha percebido.

Está visto que as agulhas, afinal, cosem todas para o mesmo sítio quando o vestido é para si.

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