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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

1/05/2026 08:00

Naquela quarta-feira, o Comandante da Polícia de um belo distrito perdido nas funduras de um país africano andava alucinado, a cuspir pólvora para todos os lados. O Bispo da localidade acusava-o de ser responsável pela morte do postulante Muikinavahia, um jovem que fora detido no domingo anterior, por ter sido apanhado a contar as cadeiras na sala de cinema, no centro da cidade.

– O estupor do postulante! – Dizia o Comandante de si para si. – Raios o partam se estava a contar as cadeiras! Estava era a tentar roubar alguma coisa, aquele sacaninha!

Mas deu-se o caso de o postulante ter morrido sem mais nem menos, de segunda para terça-feira, e agora o Bispo não o largava, sempre a dizer que ele era um grandessíssimo irresponsável, que o país não arredava pé do terceiro mundo por causa de homens como ele, que já tinha apresentado queixa dele nas mais altas instâncias, que aquilo não haveria de passar em vão, que mais isto e mais aquilo e mais não sei o quê. Um inferno!

Como se isto não bastasse, uma varredoura do município tinha acabado de encontrar um branco morto, esvaído em sangue, debaixo de um abacateiro na berma da Estrada Nacional. Morto e bem morto, com a cabeça rachada ao meio. Alguém atirara-lhe uma pedra durante a noite, atingindo-o em cheio.

– Não é possível! – Dizia o Comandante da Polícia. – Como é que alguém atira uma pedra à cabeça de um filho da puta de um estrangeiro branco?! Devem ter pensado que era um cão. Só pode.

Esta explicação não convenceu ninguém. Antes pelo contrário, agravou a situação. Ligaram da Direção Nacional da Polícia, exigiram uma investigação séria e estipularam um prazo curto para apresentação de resultados, quer no caso do postulante, como no caso do estrangeiro, senão seria transferido para um posto no meio do mato, num lugar cheio de cobras e mosquitos, de modo que o Comandante andava a bufar enxofre e estava cada vez mais convencido de que a culpa era da sua mulher, não pelas mortes, mas pela situação no geral.

– Aquela cabra lançou-me um feitiço! – Dizia ele. – Aquela cabra quer me desgraçar!

O Comandante da Polícia nem tinha ainda tirado o boné, tal era o seu descomando naquele dia. Cirandava para cá e para lá no gabinete à procura de uma luz, sempre com o boné enfiado na cabeça e era um boné imponente, tão imponente que o tornava vinte centímetros mais alto e simultaneamente vinte vezes mais ridículo. Às tantas, teve uma ideia. Pegou no telefone e ligou para o diretor do Estabelecimento Prisional.

– Manda vir aqui o Facadas e o Fumo dos Ossos – ordenou.

– Estão presos – respondeu o diretor da cadeia.

Fez-se silêncio.

O diretor da cadeia pensou que havia algum problema com a ligação e disse:

– Alô.

Nisto, foi forçado a afastar o auscultador, tal era a fúria do outro lado da linha:

– Eu sei perfeitamente que esses dois cabrões estão presos, mas nós temos um acordo, ou não temos?

– Hã hã – disse o diretor.

– Então manda vir aqui os gajos.

– É melhor que seja à noite, como sempre – sugeriu o diretor da cadeia. – Se for agora, as pessoas hão de reparar.

O Comandante da Polícia não estava, contudo, nada virado para a prudência:

– Eu quero é que as pessoas se lixem! – Berrou. – Manda vir aqui os gajos já!

Um guarda prisional informou o diretor de que àquela hora não se avistava ninguém nos arredores da cadeia e, pouco depois, abriu-se uma portinhola que dava para o exterior, na ala norte, por onde saíram, em plena luz do dia, Facadas e Fumo dos Ossos, dois jovens bandidos do piorio, que seguiram em frente a conversar com o ar mais natural deste mundo, como se acabassem de sair de um bar.

– Serviço durante o dia não é normal, mano – disse Fumo dos Ossos.

– Se calhar, enfeitiçaram o Comandante – sugeriu Facadas. – Acho que alguém o quer lixar.

– Pode ser perigoso para a gente – avisou Fumo dos Ossos. – O melhor é bazar.

– Logo se vê, mano – retorquiu Facadas. – Vamos andando e pensando.

(CONTINUA...)

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