Associações de imigrantes pediram hoje ao novo ministro da Administração Interna que combata abusos de poder nas forças de segurança contra estrangeiros e cidadãos.
No dia em que foi anunciada a detenção de sete agentes da PSP na sequência da investigação a crimes de tortura grave, violação, agressões e abuso de poder numa esquadra em Lisboa, onde foram identificados outros casos semelhantes contra toxicodependentes, pessoas sem-abrigo e estrangeiros, duas das principais associações de imigrantes em Portugal disseram esperar que o novo ministro, Luís Neves, combata o extremismo e abusos na PSP e GNR.
“Esperamos que o novo ministro da Administração Interna tenha um novo olhar para o funcionamento das polícias e ajude a combater o discurso de ódio que existe”, afirmou à Lusa Timóteo Macedo, presidente da Solidariedade Imigrante, a maior associação do género em Portugal.
Por seu turno, a diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações, Eugénia Quaresma, destacou que a investigação hoje anunciada, que decorre na sequência de uma primeira operação com início no ano passado, partiu de uma denúncia da própria PSP.
“O facto de ser o Ministério Público e a PSP a trabalharem em conjunto é um sinal de que a polícia existe para proteger os cidadãos, independentemente da nacionalidade”, afirmou.
Sobre Luís Neves, que era diretor nacional da Polícia Judiciária, Eugénia Quaresma disse esperar que ajude a combater a “mentalidade da agressão pela agressão” que persiste nalguns elementos das forças de autoridade, mas também “contribuir para a sensibilização da sociedade contra o discurso de ódio”.
Já para Timóteo Macedo, estas detenções mostram que Portugal tem uma “polícia semelhante ao estilo da polícia dos EUA contra os imigrantes”, como provam os crimes que alegadamente cometeram.
“Temos aqui polícias a perseguir pessoas constantemente”, acusou o dirigente da associação, recordando que, recentemente, um associado o contactou a indicar que “estava a ser perseguido pela GNR, sem qualquer tipo de razão”.
“Há um clima de terror contra os imigrantes para o qual contribuem as forças de segurança” e “o que aconteceu no Rato é um indício de que as coisas não estão a melhorar”, disse, numa referência à esquadra lisboeta onde estavam os agentes agora detidos.
Por isso, acrescentou o dirigente da Solidariedade Imigrante, “é bom que os agressores que sejam condenados, mas há outros que são cúmplices, porque viram as agressões e nada fizeram”.
“Há uma cultura de impunidade que reina nas forças de segurança” e “isso tem de ser combatido pelo novo ministro”, salientou.
Hoje, a PSP anunciou a detenção de sete agentes na sequência da investigação a crimes de tortura grave, violação, agressões e abuso de poder na Esquadra do Rato, Lisboa.
Em comunicado, o Ministério Público (MP) e a PSP anunciaram que foram feitas sete detenções, nove buscas domiciliárias e sete buscas não domiciliárias a esquadras, no âmbito de um segundo inquérito relativo a factos ocorridos na Esquadra do Rato, a correr termos no Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa.
Já em janeiro fora divulgada a acusação contra outros dois agentes, acusados de tortura e violação, visando sobretudo toxicodependentes, pessoas sem-abrigo e estrangeiros.
Os dois polícias, de 21 e 24 anos, foram detidos em 10 de julho do ano passado, após buscas domiciliárias e nas esquadras do Bairro Alto e Rato, em Lisboa, e foi a PSP que denunciou os factos em investigação.
Os dois arguidos foram acusados pelo MP de crimes de tortura, abuso de poder, violação, ofensas à integridade física, entre outros.
Na acusação é referido que os dois agentes agrediam pessoas que tinham detido com “socos e chapadas e coronhadas na cabeça, tendo inclusivamente filmado e fotografado algumas dessas situações e as respetivas vítimas”.
O Ministério Público referia que os agentes escolhiam maioritariamente toxicodependentes, pessoas que cometeram pequenos delitos, muitos com nacionalidade estrangeira e ilegais, ou em situação de sem-abrigo.
Um dos casos relatados é o de um cidadão marroquino que alegadamente terá sido sodomizado com um bastão por um dos arguidos e espancado e depois levado no carro patrulha e abandonado na rua.
Muitos desses abusos foram filmados e partilhados em grupos de WhatsApp com dezenas de outros agentes.