A retoma da indústria petrolífera na Venezuela, após a captura de Nicolás Maduro pelos EUA, será demorada e cara, alertam os analistas, que estão divididos sobre a evolução dos preços num futuro próximo.
Thomas Mucha, estratega geopolítico da Wellington Management, espera que “os preços do petróleo caiam e que o mercado reflita isso mais rapidamente do que o esperado”.
Mas acredita que “qualquer aumento na produção de petróleo da Venezuela” levará “um tempo significativo, dada a situação da infraestrutura do país”.
No entanto, refere, “os mercados globais de petróleo estão com excesso de oferta e quem participa do mercado já tem uma visão negativa sobre os preços”.
Para Mucha, “preços mais baixos do petróleo implicam inflação mais baixa, o que poderia desencadear uma resposta positiva do mercado, pois pode significar que a Fed pode continuar com a flexibilização” das taxas de juro.
Também Christian Schulz, economista-chefe, e Alexander Robey, Gestor de Carteiras, da Allianz Global Investors (Allianz GI) alertam que é “improvável que as receitas do petróleo sejam uma solução rápida para as finanças da Venezuela”, salientando que “restaurar a produção em 1 a 2 milhões de barris por dia levará de 5 a 10 anos e até 100 mil milhões de dólares em investimentos”.
Para os analistas, “um alívio imediato parece improvável”, indicando mesmo “que a instabilidade pode reduzir a produção venezuelana e elevar os preços do petróleo no curto prazo”.
Segundo Tomas Mucha, “a fragmentação contínua da ordem global, o aumento do risco geopolítico e a deterioração contínua das normas institucionais” continuam a desafiar o “avanço geral do mercado”.
Os analistas alertam ainda para as consequências desta intervenção americana.
Christian Schulz e Alexander Robey acreditam que “num cenário positivo, uma transição bem-sucedida e uma recuperação económica na Venezuela poderiam estabilizar a região a médio prazo, permitindo o regresso de muitos dos sete milhões de refugiados venezuelanos e fortalecendo as forças políticas pró-americanas na região de forma sustentável”.
No entanto, lembram, “as intervenções passadas dos EUA na América do Sul raramente trouxeram estabilidade duradoura” e “os EUA podem ter dificuldades em controlar a Venezuela se o Governo resistir à pressão e receber apoio de aliados”.
Além disso, destacam, “a agitação civil poderia levar a novos fluxos de refugiados, desestabilizando a região e além”.
Mucha acrescenta que “o potencial para uma perturbação mais ampla continua a ser uma variável fundamental a monitorizar”, o que “inclui a possibilidade de agitação política na Venezuela, caso a situação interna com o seu Governo se deteriore nos próximos dias”.
“Remover Maduro pode ter sido fácil, mas os EUA podem precisar de um plano para um envolvimento económico e militar sustentado”, salientou.
Os EUA lançaram no sábado “um ataque em grande escala contra a Venezuela”, para capturar e julgar o líder venezuelano, Nicolás Maduro, e a mulher, e anunciaram que vão governar o país até se concluir uma transição de poder.
O Presidente dos EUA, Donald Trump, exigiu, no domingo, à nova líder venezuelana, Delcy Rodríguez, “acesso total” aos recursos naturais da Venezuela.
“O que precisamos [de Delcy Rodríguez] é de acesso total. Acesso total ao petróleo e a outras coisas no país que nos permitirão reconstruir o país”, sublinhou.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, explicou que um dos principais interesses da Administração Trump é refinar o petróleo bruto pesado da Venezuela, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, nas refinarias dos EUA.
As refinarias na Costa do Golfo dos EUA “são as melhores para refinar este petróleo bruto pesado. De facto, tem havido escassez de petróleo bruto pesado em todo o mundo, por isso penso que haveria uma enorme procura e interesse por parte da indústria privada se lhes fosse dada a oportunidade de o fazer”, disse Rubio à televisão norte-americana ABC News.