O Bom Psiquiatra

É tão importante sabermos o que nos espera, que muitas vezes mitos e temores criam-se em torno de personagens, de estatutos, profissões, pessoas... Esta é uma reflexão próxima, íntima, do outro lado da cortina.

Psiquiatras são nem mais, nem menos do que pessoas. Sendo pessoas, têm uma história, um desenvolvimento, defeitos e qualidades. Há vários momentos ao longo da nossa escolha e posterior formação que são interessantes de refletir, porque associam-se a importantes mitos ou sensações.

Quando pensamos em escolher a especialidade, recebemos imediatamente vários comentários. Entre os mais comuns de desvalorização da especialidade, surgem outros e um dos que recordo foi um colega a dizer “para se ser um bom psiquiatra tem de se viajar”. No início estranhei este comentário, com pensamentos “E quem não puder? E quem não gosta de viajar? Estão impedidos de se tornarem bons?” Ao longo dos anos a resposta tem sido cada vez mais clara. Claro que é importante conhecer outras culturas, mas o que me parece que se esconde por detrás desta afirmação é a curiosidade. Fazer a viagem pela história da pessoa, interessarmo-nos honestamente pela pessoa que temos à frente. Conhecer bem a cultura de cada pessoa que acompanhamos.

Durante a formação somos confrontados com imensas situações de doença, intervenções diagnósticas e terapêuticas e as suas regras. Tentam retirar-nos a nossa espontaneidade comportamental para sermos neutros e eficientes na nossa intervenção. Penso que é a altura em que mais se altera o comportamento de uma pessoa ao formar-se como psiquiatra.

E os amigos? Os chamados amigos “não-médicos” ficam habitualmente e mais no início incomodados, acreditando que estamos sempre a analisar o seu comportamento e a fazer diagnósticos. Claro que depende de pessoa para pessoa, mas penso que a maior parte de nós tem o lado profissional desligado, que se ativa apenas em momentos chave, afirmações que se relacionam com doenças. O que é semelhante a todas as especialidades. Por exemplo, os neurologistas detetam rapidamente doenças pela forma como as pessoas andam. A diferença do estigma é que ninguém anda de forma diferente ao lado de um neurologista seu amigo.

Ainda existe os que acham que somos capazes de adivinhar o que pensam, simplesmente olhando. Se tal é, não é por artes mágicas, mas por dedução, como os mentalistas modernos.

Mas o que é ser-se um bom psiquiatra? Na minha opinião é ser-se capaz de realmente ouvir as pessoas, de compreender ou simplesmente aceitar, de traduzir aquilo que lhes é impossível por vezes de perceber. É conseguir ultrapassar as suas dificuldades, os seus demónios e ser-se a melhor pessoa possível, bom médico, empático e assertivo. É conseguir ultrapassar-se adições, dificuldades, ... ser-se livre para lutar e construir um mundo melhor. Afinal, se quem nos vem pedir ajuda, pede ajuda não só pela sua doença, mas para se tornar a melhor versão de si, como poderemos nós o fazer, se não procurarmos o mesmo?

Um bom psiquiatra ajuda a pessoa a crescer, sem ficar com o crédito, como um treinador. Ajuda a ganhar esperança, quando ela parece perdida e a diminuí-la quando não é real. O caminho do equilíbrio e bom senso, que se não for ele também equilibrado com a promoção da liberdade, acabamos todos presos na idílica e insubstancial eutimia. Saber que a tristeza, a ansiedade, a zanga e a euforia fazem parte da vida, sem querer “tratar” o que não é tratável. E tratar o que precisa de ser tratado e é uma doença por si. Conhecer a linha que separa o que é a doença e a saúde, que para cada um é diferente. Aí, sem dúvida que se não conhecermos diferentes culturas, diferentes subculturas, crenças, vivências, ... não compreendemos o que torna cada pessoa diferente e se essa diferença é ou não uma doença.

Sem dúvida para mim, a palavra é liberdade. Liberdade de doenças. Liberdade para sentir. Liberdade para mudar e ser mudado. Liberdade para lutar por um mundo melhor. Muitas vezes posso não conseguir ser, mas quero sempre ser, acima de tudo, a minha melhor versão.