Coisas sem valor

Em África eu vivia rodeado de histórias. Todos os dias aconteciam coisas inesperadas, absurdas, impensáveis.

Eram ocorrências simples, insignificantes, quase impercetíveis, mas com força suficiente para preencher as horas de forma estrondosa e vibrante. Eu sentia-me constantemente inspirado, até mesmo quando perdia a paciência e o meu grau de agastamento atingia o cúmulo – coisa que ao longo de cinco anos registou três ou quatro episódios memoráveis – de tal modo que estava sempre a escrever, sempre a tomar notas nos meus cadernos ou a bater teclas no computador.

Passava horas e horas a escrever. Primeiro no meu quarto na missão onde dei aulas durante três anos, depois na cabana no bairro onde morei outros dois, numa cidadezinha da Alta Zambézia, perto da nascente do Licungo. As palavras saltavam como sonhos e sapos entre a realidade e a ficção, conforme os feitiços e os feiticeiros iam marcando os acontecimentos e orientando a fortuna e os azares de cada um.

– Nada acontece por acaso – diziam-me.

Volta e meia, eu mandava vir:

– Isso é tudo uma treta!

As pessoas ficavam chocadas, porém mostravam-se complacentes e preveniam-me:

– Cuidado com a magia africana.

Agora, tanto tempo depois, já perdi quase todas as histórias de África. A macumba desfez-se no céu da minha ilha, afogou-se no mar fundo que a isola, penetrou na terra que piso até ser nada, poema morto, voz oca. O sortilégio africano passou a ser um puro esquecimento dentro de mim, como todos os outros que compõem o meu passado, a minha vida. Nem sequer em sonhos o revisito, nem ele me revisita. Abandonamo-nos pouco a pouco, mas sem nunca partir definitivamente, como fazem os amantes cansados do amor.

Às vezes, quando estou muito triste, fecho os olhos e vejo uma estrada de terra batida a rasgar a savana, perdida numa manhã serena e longínqua. Vejo isso e pouco mais. Noutras ocasiões, procuro com nostalgia os cadernos e os documentos Word, mas já mal compreendo o que escrevi, parece outra língua, um dialeto banto em desuso, palavras impenetráveis, impronunciáveis…

Kinanvekela Muluko wi avuluse munepa aka!

Rezo a Deus para que salve a minha alma!

Sim, em África eu vivia rodeado de histórias e aqui também, obviamente, pois as histórias são como as estrelas – existem onde há céu e noite para as contar. Acontece que não reparo nelas. Parece que lhes falta o essencial – o feitiço. Ou então o problema está no feiticeiro – Duarte Caires. Talvez a sua vida se tenha tornado tão linear e redutora ao ponto de lhe provocar a cegueira do espírito. Quem não vê, não conta. Parece lógico, não?

Além disso – é preciso dizê-lo – uma frase honesta custa tanto quanto a venda da alma ao Diabo. É um negócio extremamente arriscado. Escrever uma frase assim em letra de imprensa, seja lá onde for, contém tanto de salvação como de condenação. Não importa se é para dizer a verdade ou para contar uma mentira, muito menos se é para falar de si ou para maldizer os outros, não interessa se é para analisar o indivíduo ou para escalpelizar a coletividade, não importa se é para dissecar o ser ou para capar a maldita atualidade que o subjuga e escraviza, seja lá para o que for, é impreterível uma frase honesta e depois outra e a seguir outra e assim sucessivamente…

Conseguir uma coisa destas, meus amigos, é o cabo dos infernos, o cabo dos infernos, podem crer. De resto, foi por isso que já queimei tantos e tantos cadernos ao correr dos anos e acredito que nunca hei de publicar um livro em vida. Não sei contar histórias como deve ser. Perco sempre a alma para o Diabo.

Mas tudo isto, face ao mundo que nos rodeia, são coisas sem valor… coisas sem valor…